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1.
O principal defeito de todo o materialismo predominante agora no interior da ultraesquerda é que o conceito, isto é, um “concreto em pensamento”, é apreendido como parte do real, separado da circunstância, que por sua vez é a lama em que este “conceito concreto” se suja.
2.
A classe, por exemplo, como “conceito concreto”, é para alguns maculada por tudo aquilo que a impede de realizar sua essência comunista na forma da gestão da sociedade: parlamentarismo, frentismo, peleguice, identitarismo, etc., obstáculos que se interpõem à sonhada unidade de classe e, em última instância, à sua generalização. O programa político dos materialistas criticados aqui, portanto, é o de livrar o proletariado de todas essas impurezas e levá-lo à montanha oposta ao castelo no interior do qual ele presentemente se encontra, para que a batalha final possa acontecer livre de confusões, com cada exército vestindo suas cores, portando suas bandeiras, cantando suas canções, enfim, com sua própria hegemonia (como nos velhos tempos!). As outras contradições do modo de produção capitalista - como gênero, raça e sexualidade - devem ser anexadas ao “conceito concreto” de classe para, dessa forma, terem suas demandas esclarecidas pela totalidade a que se chega ao seguir a trilha da contradição verdadeira: capital e trabalho. Dessa forma, o caráter ilusório daquelas, caráter de falsa consciência, de “subjetivismo”, pode ser revelado.
3.
A ferramenta para o cumprimento de tal programa varia a depender do grupo. Para alguns, trata-se do partido comunista, para outros, da organização de modo mais geral. De qualquer forma, essa ferramenta surgirá, nessa concepção, da refutação das mistificações que alienam a esquerda, que vai se reunir assim à sua essência de agregadora de um pólo da relação de classe capitalista quando todos perceberem a verdade primária da luta de classes, eclipsada atualmente pela ideologia. Por isso, esse materialismo é feuerbachiano e nostálgico. Devido a isso, boa parte dos debates no interior desse materialismo se dá em torno de questões puramente escolásticas, são disputas “acerca da realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da prática” [1]. Algumas das formas mais cansativas de debate escolástico são as propostas pelos sedvacantistas do marxismo, que se dedicam por isso ao esclarecimento dos problemas e das validades programáticas do stalinismo, trotskismo, maoismo, da social-democracia e assim por diante no interior dos espaços de debate em que se encontram.
4.
Esse voluntarismo no sentido da desmistificação e do esquematismo teóricos se expressa também, nas atividades práticas, numa crença na suficiência de um trabalho militante descolado da história e da conjuntura. Basta ir às fábricas de forma bastante paciente, estudar as condições de trabalho, relacionar essas particularidades à totalidade capitalista - cuja compreensão é propriedade do militante - e retornar à fábrica com as instruções do que fazer. Eventualmente, dessa forma, o poder e a unidade serão gradualmente construídos, criando enfim uma situação em que o exército proletário - agora na outra montanha - possa enfrentar o do capital diretamente.
5.
Porém, rapidamente alguns problemas de tal concepção se evidenciam. Essa forma de atuar - mesmo quando feita de forma menos dogmática e pedagógica - se prova como a construção de um sindicalismo alternativo, mais radical, mas ainda determinado pelos mesmos limites do sindicalismo comum: superficialmente, continua sendo uma forma de mediação entre os interesses dos trabalhadores e do empregador e, mais profundamente, é a auto-organização de uma classe cada vez mais inseparável do modo de produção capitalista, cada vez mais subsumida ao capital. Concretamente, isso se expressa na compreensão comum da auto-organização no dia-a-dia como uma ferramenta de resolução de problemas cotidianos, incapaz de representar “a classe” em direção à autogestão da produção e generalização da condição proletária (o Estado Operário, a República dos Conselhos), pois esta autogestão tornou-se impossível de um ponto de vista técnico, e essa generalização, indesejada, com o pertencimento de classe aparecendo, no interior das lutas, como uma restrição externa à realização das necessidades dos proletários. Esse problema não pode ser resolvido programaticamente, a priori, e não é isso que proponho; é um momento necessário da revolução no atual ciclo de lutas, mas dele deriva a necessidade da auto-organização ser atravessada pela histórica, pela conjuntura:
A conjuntura é simultaneamente encontro e desfazimento. É o desfazimento da totalidade social que, até então, unia todas as instâncias de uma formação social (política, econômica, social, cultural, ideológica); é o desfazimento da reprodução das contradições que formam a unidade dessa totalidade. Daí o aspecto aleatório, a presença de encontros, a qualidade de um evento, numa conjuntura: um desembaraçar que produz e reconhece a si mesmo no aspecto acidental de práticas específicas. A tal momento pertence o poder de fazer “o que é” ser mais do que aquilo que contêm, de criar externamente às sequências mecanísticas da causalidade ou da teleologia do finalismo. [2]
6.
Quando a história insiste em aparecer e o movimento irrompe em uma determinada conjuntura, ela o faz com as diversas contradições aparecendo em fusão, nunca como fenômenos puros, isoláveis. A reação a isso, por nossos materialistas, tem sido a prescrição vaga da disciplina, organização e programa, capazes de, nessa forma vaga e disforme, superar eventualmente a bagunça que as atuais revoltas produzem como característica constitutiva. As formas organizativas e programáticas prescritas neste momento foram elaboradas, geralmente, no momento descrito na tese número 4 e, mesmo lá, são reproduções de estratégias anteriores da luta de classes, isto é, novamente privadas da circunstância. O resultado não pode ser diferente da negação dessas novas formas da luta de classes segundo noções preestabelecidas de como ela deve se desenrolar (greve, disputa de sindicatos, duplo poder, conquista da hegemonia, etc.).
7.
Para além disso, aquelas outras contradições que aparecem no momento da conjuntura, como a de gênero ou da relação com a terra, são dispensadas como sob a jurisdição do institucionalismo “identitário”, como algo relativo exclusivamente à vida privada ou a interesses parciais, ou como um plano maquiavélico pelo apagamento da classe. Neste momento, os nossos materialistas ou deixam a história passar, desgostosos ao ver as imagens do “conceito concreto” se sujando na lama da conjuntura, ou tentam desesperadamente resgatá-lo dela e limpá-lo, para que apareça cristalino novamente, como eles acreditam ter aparecido no passado.
8.
Sobre esta última parte, contudo, Lenin já polemizava em 1916:
Imaginar que uma revolução social é concebível sem as revoltas das pequenas nações nas colônias e na Europa, sem as explosões revolucionárias de um setor da pequena-burguesia com todos seus preconceitos, sem um movimento do proletariado politicamente não-consciente e massas semiproletárias contra a opressão de seus latifundiários, da Igreja, e da Monarquia, contra a opressão nacional, etc. – imaginar isso é condenar a revolução social. Então, um exército se enfileira em um local e diz “Nós apoiamos o socialismo”, e outro, em outro local qualquer, diz “Apoiamos o Imperialismo”, e isso será uma revolução social! […]
Quem espera uma revolução social “pura” nunca vai viver para vê-la. Tal pessoa fala tanto de revolução sem entender o que é uma revolução. […]
A revolução socialista na Europa não pode ser outra coisa senão uma explosão de uma luta de massas por parte de todos os diversos elementos descontentes e oprimidos. Inevitavelmente, segmentos da pequena-burguesia e dos trabalhadores atrasados irão participar nela — sem tal participação, a luta de massas é impossível, e sem ela, a revolução é impossível — e quase que inevitavelmente eles trarão para o movimento seus preconceitos, suas fantasias reacionárias, suas fraquezas e seus erros. Mas objetivamente, eles irão atacar o capital, e a vanguarda consciente da revolução, o destacamento avançado do proletariado, expressando essa verdade objetiva de uma luta de massas variada e discordante, heterogênea e exteriormente fragmentada, será capaz de unir e dirigi-la, tomar o poder, expropriar os bancos, e os trustes que todos odeiam (ainda que por diferentes motivos!), e introduzir outras medidas ditatoriais que em sua totalidade equivalerão à derrubada da burguesia e a vitória do socialismo, que, no entanto, de nenhuma maneira, imediatamente se “expurgará” da escória pequeno-burguesa.[3]
9.
Essa citação, ainda que marcada pela concepção programmatista de revolução - o horizonte revolucionário de todo o ciclo de lutas do início do século XX - expressa corretamente o caráter discordante e caótico da revolução, com seus diferentes interesses e contradições em jogo, e que se evidencia também no atual ciclo de lutas, conforme ele produz revoltas fugazes e contraditórias e bloqueios da circulação por proletários e povos deslocados pelo mundo - nem sempre determinadas, em última instância, “para o bem”. É essa a concepção que tenho buscado defender nessas teses, a da necessidade da revolução criticar a si mesma para triunfar, superar seus próprios limites, em oposição à revolução pura que existe no cérebro de nossos materialistas-idealistas e que mais se assemelha a uma operação militar ou a uma cirurgia.
10.
A atual situação global pode ser compreendida como uma dupla reação contrainsurgente: contra o ciclo de revoltas de 2019-2022 e contra a revolta do gueto de Gaza em 7 de outubro de 2023. Essa reação assume tanto formas “progressistas” quanto reacionárias e tem triunfado inequivocamente sobre todo o globo. Pensando na relação estabelecida entre a parcela da ultraesquerda que tenho criticado aqui e os desdobramentos desses processos, diferentes grupos criticaram, por exemplo, os portuários italianos por “aderirem ao nacionalismo palestino”, imigrantes estadunidenses por darem a sua revolta um caráter racial ou, mais geralmente, determinado movimento de revolta por “não apresentar demandas” (o que, em última instância, é a exigência de que tais movimentos sejam mais democráticos); tudo isso - e essa é a parte mais importante - de um ponto exterior, sem se engajar com esses movimentos de forma útil, ou seja, acreditando “ser a revolução” que critica um avatar de si mesma, ao invés de participando do movimento revolucionário efetivamente para que, em seu desenrolar, ela critique a si mesma num sentido comunista e seja capaz de superar seus próprios limites. Em última instância, a relação estabelecida com esses processos tem sido ou ignorância ou normativismo e, dessa forma, esses camaradas não poderão evitar de perder o trem outra vez, quando ele voltar a passar pela nossa estação.
[1] - Karl Marx - “Marx sobre Feuerbach” (1845) com alterações de Engels, 1888. Em: Karl Marx, Friedrich Engels - A Ideologia Alemã. Editora Boitempo, 2007.
[2] - Théorie Communiste - The conjuncture: a concept necessary to the theory of communisation (originalmente em SIC - International Journal for Communisation n. 2; 2014). Disponível aqui (https://libcom.org/library/conjecture-concept-necessary-theory-communisation).
[3] - Vladimir Lenin - A Rebelião Irlandesa de 1916 (1916). Disponível aqui: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/10/91.htm.