Tradução - Floresta e Fábrica: A Ciência e a Ficção do Comunismo (Nick Chaves e Phil A. Neel)

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Comentário da Tradução

Por Grupo Comunista Antípoda

Traduzir Fábrica e Floresta foi um processo mais fluído do que pensávamos. O texto trabalha com muitos trejeitos literários para criar a cena do comunismo, e seus efeitos sobre o ser humano de novo tipo, na mente do leitor, e isso foi transposto ao processo de tradução. Com certeza, para nós, intimamente familiarizados com a lógica capitalista, a tarefa de imaginar um mundo livre, detalhe por detalhe, é praticamente impossível. O comunismo se define por seus aspectos negativos, por sua contraposição ao atualmente existente [O Capital], e assim definir onde acabaria esse movimento de negação não faz sentido. No entanto, precisamos partir de algum lugar, a composição de um sujeito revolucionário coletivo necessita imaginar onde se quer chegar. Se somos empurrados em direção à desmercantilização pela situação caótica em que a humanidade se encontra, por um desejo de não sermos dominados, também o fazemos por termos alguma ideia de nosso destino final, para onde queremos ir. Com certeza, todo aquele que clama ter descoberto a dinâmica do comunismo por vir está caindo em um erro grosseiro, o exercício criativo nesse texto não tenta fazer isso — até podemos pensar que está limitado demais para imaginar o verdadeiro comunismo, em que as tecnologias serão tão avançadas que manter a discussão em torno de pequenos motores não faz sentido, mas esse não é o ponto.

A constituição de um sujeito revolucionário coletivo é o problema central da comunização e seus satélites (colocamos os autores nesse ponto da órbita). Isso quer dizer que as condições materiais para as medidas comunizatórias já existem, que é uma questão de qual acontecimento vai dar início a esse processo, em vez de um desenvolvimento de forças, de tarefas democráticas a realizar. Floresta e Fábrica parece querer alimentar a alma do sujeito revolucionário coletivo.

Não sabemos quando esse comunismo se passa, esses communards podem estar a cem ou a mil anos no futuro (apesar de que algumas referências dificilmente suportariam tanto tempo), o que sabemos é que depois de um provável derramamento de sangue e suor sem precedentes, a humanidade foi capaz de se livrar das intoxicações causadas pela lógica capitalista. Isso dificulta um pouco o que sempre queremos fazer, que é pensar no como, no passo-a-passo, no processo de transição em si.

Quando pensamos no como, no entanto, os autores não estão tão longe da escatologia com a qual estamos acostumados. Isto é, a ideia presente na Bíblia, em Lênin, em Bordiga e muitos outros, a de que uma grande batalha está por vir, que vai expurgar as grandes contradições, contradições que por outro lado a tornam inevitável. Na Bíblia o exército de anjos combate as forças do mal, em Lênin os militantes do partido munidos da linha correta e do partido militarizado derrotam as forças do capital, em Bordiga o Partido Histórico ressurge e, através do que era o partido formal, acorda a espécie humana de seu sono profundo, em Fábrica e Floresta é a ecologia partisã que passa a atuar como partido enquanto uma tarefa contingente e imposta pelo caos capitalista.

Por isso, mas não só por isso, existe uma grande importância para essas linhas (exceto o caso bíblico), a tarefa de avaliar o momento correto e, em muitos casos, a de prevenir que o sujeito revolucionário seja atingido por doenças que o incapacitem para a batalha final. De fato, o papel dos comunistas em todos esses casos será o de forçar uma ruptura, promover exageros que incentivem aqueles ao seu redor a continuar a luta, a marchar rumo a vitória final (ou a última para aquele momento). E não é sem motivo, existem muitas revoltas sem rupturas, muitos levantes que logo adormecem, aquelas que se mantém vivas são a exceção que comprova a regra. Isto é, o capital se provou muito capaz de corromper e integrar para si os combatentes de outras eras: sindicatos, partidos, todos se degeneram em gestores do capital, em wannabes de partidos da ordem, querendo um pedaço maior do bolo para si. Nesse caso, o rigor teórico e a análise do movimento correto parecem se sustentar: as medidas artificiais para o crescimento do partido e o voluntarismo desesperado, de fato, nunca deram bons frutos. E, indo mais além, são eles mesmos — os lacaios do capital, embebidos no tipo mais vulgar de democratismo — que acenam gentilmente para a carruagem do progresso atropelar a todos. Para que a construção de um mundo emancipado se torne possível, é preciso pôr fim a estas bestas-feras.

Ilustração infantil de personagens investigando um mundo com cogumelos gigantes, caçadores da grande floresta


Floresta e Fábrica: A Ciência e a Ficção do Comunismo

por Phil A. Neel e Nick Chavez

“Embora o utópico veja os efeitos da sociedade atual (na verdade, Marx elogia respeitosamente alguns dos mestres do pensamento utópico), seu erro reside em deduzir a forma da sociedade futura não a partir de uma concatenação de processos reais que ligam o curso do passado ao do futuro, não a partir da realidade natural e social, mas a partir de sua própria mente, da razão humana. O utópico acredita que o objetivo do curso da sociedade deve estar contido na vitória de certos princípios gerais que são inatos ao espírito humano.” - Amadeo Bordiga [1]

Tangibilidades

Não importa para onde vá. Você passa por ecos da mesma sala com a mesma argamassa esbranquiçada. Lá estão os mesmos cafés de madeira e cromados. Os seus locais de trabalho são armazéns, escritórios, estaleiros de construção. Não importa. Todos esses lugares são cubículos ocos cheios de pessoas aglomeradas que sangram a esperança lenta e escura como o sangue dos órgãos - o tipo de rastro deixado por animais caçados. Como qualquer criatura à procura de um abrigo, você encontra refúgio onde pode. Volta para casa, para o único porão ou armário que pode pagar nesta cidade luminosa e maldita, sempre construída para alguém mais rico — está coberto com o brilho sinuoso da fibra de vidro do local de trabalho ou envolto na dor suave de um dia debruçado sobre a mesa, sobre o balcão, sobre os leitos de pacientes de hospício, assolados com a lenta agonia de uma vida que lhes é arrancada como raízes profundas de um solo solto —, e vê em um dos seus aplicativos algo que lhe parece um remédio, experimentando-o em seguida. Você pega um projetor barato e lança sobre a parede branca um vídeo repetido em loop, na imagem de uma janela e, fora dela, a chuva a cair suavemente na copa de uma floresta verdejante, as árvores a balançar com a voraz inundação verde da vida real, o barulho tremulante emitido das suas pequenas caixas de som como chuva de verdade, e o triste conforto que palpita na sua pele como um sentimento genuíno. Quando você pressiona sua mão sobre a imagem, não sente nada por baixo, a não ser argamassa na parede de gesso esbranquiçada.

As utopias atuais são muito semelhantes. Estão enterradas sob a luz azul de telas que parecem janelas, mas que são menos que isso. Já vimos catedrais de tirar o fôlego construídas no Minecraft. Já deambulamos em adoração melancólica pelos “espaços liminares” dos vloggers de exploração urbana e fóruns de backrooms. Sentimos o calor sublime de Miyazaki e do imageboard solarpunk. Por vezes, podemos até fingir que locais distantes oferecem algo mais substancial: a Selva Lacandona, Rojava, Cuba, até mesmo a Pyongyang do cartaz de propaganda (naquele ponto médio estético perfeito entre Stalin e Wes Anderson). Porém, para a maior parte de nós, estes “lugares reais” continuam a ser imagens, manchadas pelo nevoeiro e pelo sangue da luta material. Tal como a suave luz azul, são uma frieza íntima. Cosplay, em vez de política.

Mais perto de casa, o desespero pode até levar-nos a “imaginar verdadeiras utopias” em qualquer vislumbre marginal de comunalidade: o nobre editor da Wikipédia, a cooperativa de trabalhadores que compete no mercado global, a partilha de comida no acampamento de protesto, a persistência da biblioteca pública apesar do ataque incessante da privatização, a horta urbana cuidada pelo executivo de uma ONG com seis dígitos no banco, a partilha de cigarros perto das lixeiras atrás da cozinha, ou simplesmente o trabalho de cuidados comuns que nos une à família e aos amigos. Imaginar que estas coisas são, de alguma forma, o embrião do comunismo, seria cômico, se não fosse tão trágico. É como alguém acreditar que a janela projetada na parede é o próprio real. A realidade sombria é que nenhum de nós viu sequer o mais tênue vislumbre de um mundo comunista — no máximo, testemunhamos alguns desses momentos de ausência de peso em que muitas pessoas se apercebem, ao mesmo tempo, de que o nosso mundo pode, de fato, ser quebrado. No fim das contas, não passam de imagens brilhantes que são melhor vistas à distância. Se lhes tocarmos, não há profundidade. Apenas trabalho, sobrevivência, desespero. Apenas a parede de argamassa, esbranquiçada.

Nestes mesmos anos em que cada verão parece ser o mais quente de todos, em que as tempestades dançam ferozmente pelas nossas cidades como deuses bêbados e em que, apesar de tudo estar piorando, todas as insurreições foram decisivamente estranguladas em nome do mesmo velho status quo — não é coincidência que tenha havido também uma proliferação de novas tentativas “políticas” de esboçar utopias detalhadas, tentando responder à pergunta “como é o comunismo?” ou “como funcionaria uma sociedade socialista?” A proliferação e popularidade destas fantasias utópicas demonstra, pelo menos, que muitos anseiam por esse outro mundo aprisionado neste, se ao menos o pudessem libertar. E, nesse sentido, a produção e o aperfeiçoamento destas ficções parecem, à partida, servir uma espécie de objetivo político. Esta é, pelo menos, a justificativa frequentemente apresentada pelos seus autores. Mesmo que as ideias, por si só, não possam gerar mudanças históricas, podemos presumir que os imaginários políticos podem nos ajudar a “orientar” a atividade de alguma forma. [2] Se tomarmos esta afirmação como verdadeira, a diversidade destas utopias funcionaria como expressão de diferenças políticas concretas. Por outras palavras, estas ficções revestir-se-iam da roupagem da “estratégia”, e cada microgênero serviria como “orientação” própria em torno da qual uma política mais prática poderia coexistir.

O fato é que a supressão do conflito de classes — escancarado em toda a sociedade —, combinada com o nível geralmente baixo de conhecimento prático sobre os processo produtivos — induzido pela desindustrialização —, descambou no empobrecimento do aspecto prático/funcional do “pensamento político” em geral, do discurso e da imaginação em particular. Como resultado disso, a maioria dos sinais de aparente diferença política ou estratégica são, na realidade, pouco mais do que um índice dos gostos, estéticas e desejos a que dão prioridade os diferentes autores e públicos que ocupam seus diferentes nichos subculturais no mercado cavernoso. As utopias atuais têm, por isso, uma enorme amplitude: vão desde os contos hiperbólicos do futurista permanentemente rebaixado (“comunismo de luxo totalmente automatizado”), passando por esquemas de planejamento que canalizariam recursos e populações a mando de aspirantes a tecnocratas (“socialismo meia-Terra”, “comunismo de decrescimento”), até aos contos de fadas mais populares de “comunas” do tamanho de cidades que surgem como pequenos brotos de auto-organização nos interstícios da sociedade ou sob a égide da insurreição. Algumas das visões mais fantasiosas conterão um momento ocasional de lucidez, enquanto outras estão totalmente desligadas da realidade.

Apesar de suas divergências aparentes, todas tendem a operar de acordo com uma lógica compartilhada que é utópica, não porque é imaginativa, mas porque não tem qualquer substância real ou profundidade. Apesar de suas formas parecerem multifacetadas, tais histórias projetam uma única sombra sobre a mesma superfície plana e esbranquiçada. Em outras palavras, essas utopias são unificadas não pelo conteúdo positivo dos mundos que objetivam e sim por compartilharem faltas gritantes intrincadas na mesma planicidade fictiva: antes de qualquer coisa, encontramos a ausência de “política” em si, no sentido de não haver uma sequência estratégica de conflitos que se extende do mundo imediato à utopia imaginada – apesar de tudo, a “utopia” é um não-lugar, não porque é impossível imaginá-la, mas porque nenhum caminho pode ser trilhado até ela; segundo, encontramos marcas negativas deixadas por questões que todas essas utopias se recusam a perguntar. Como exatamente a produção de qualquer coisa além de simples artesanatos vai ser conduzida, tanto no nível social quanto técnico (sem se apoiar na resposta mágica da “democracia direta” e “completa automação”)? Ou melhor: como pode tal sistema surgir, não apesar, mas através do próprio processo revolucionário, inerentemente desigual e desordeiro? Essa é uma recusa seletiva de rigor que, no melhor dos casos, surge quando os autores usam noções familiares ou do senso comum para encobrir suas falhas de imaginação e, no pior dos casos, para disfarçar o impulso reacionário que assombra a imaginação utópica. Nesse sentido, estas utopias compõem o que o filósofo Emil Cioran se referiu como “idolatria do amanhã”, na qual a própria tentativa de sonhar o futuro em todos os seus detalhes “bloqueia nossa habilidade de ter qualquer futuro”.[3]

Alguém pode ser tentado aqui a igualar o “utópico” à qualquer abordagem fictiva ou imaginativa da política, contrastando-as, por fim, com uma alternativa “científica” que em tese se preocupa apenas com as questões da prática e da crítica. Mas isso não faz muito sentido. As dimensões imaginativas, estéticas, literárias, inventivas e intuitivas da política — e ainda assim intelectualmente estreitas ou elegantemente pretensiosas — terminam por assumir uma enorme influência na construção do poder popular. Não importa o quão correta ou crítica é a sua análise se ninguém é atraído por ela. E essa atração não é algo lógico, nem um processo de cuidadosa discussão, discurso iluminado ou debate. O pensamento ocorre primeiro através do afeto e da analogia — através de um cálculo bruto de vibes em vez da matemática da mente. O problema com a utopia, portanto, não é ser ficção científica. Seu poder fictício é exatamente o que faz a utopia ser capaz de exercer tamanha força desproporcional na imaginação política. Em função dessa razão, a criação artística de estéticas atraentes e mundos imaginativos se torna essencial para a construção prática de qualquer projeto político. O problema é, na verdade, que a maioria das utopias não são ficção científica — ou pelo menos ficção científica “de verdade”, distinguível da fantasia por seus esforços de levar a sério o mundo material.

De outro modo, o que torna esses esforços imaginários “utópicos” no mau sentido é o fato de não serem tratados como experimentos rigorosos da imaginação que precisam estar alinhados, ao menos em alguns aspectos fundamentais, com os limites materiais de nossa realidade, e precisam estar de acordo, como for possível, com as presunções realistas sobre o caminho político que se estenderia daqui até ali. Esses experimentos de pensamento também não são compromissados a algo como uma metodologia científica — dissolvendo as aparências do “senso comum” com a força corrosiva do inquérito crítico. Esses protótipos são na verdade profundamente acríticos, tomando como verdade a aparência imediata (e inerentemente alienada) do mundo. Em decorrência disso, ao invés de ficção científica, eles são mais como um realismo mágico, espelhando a realidade na forma exagerada de uma fábula. Essas utopias agem portanto, como o que Lênin chamou de um “desejo que nunca pode se tornar realidade”, ou mais especificamente “um desejo que não está baseado nas forças sociais, nem apoiado pelo crescimento e desenvolvimento das forças políticas, de classe”. O problema não é serem imaginativas ou fantasiosas - expressarem um desejo para o futuro - mas o fato de não haver nada por trás delas que possa tornar o desejo realidade. Sua estética não se liga a nenhuma crítica substancial, científica, de como a sociedade capitalista realmente opera e seus atos de imaginação não tentam pensar através dos problemas da reconfiguração — social, técnica, ecológica — que vai assolar qualquer tentativa de quebrar este mundo e construir outro. Não existe uma enorme floresta verde por detrás da janela, apenas a mesma argamassa esbranquiçada.

Como então uma alternativa verdadeiramente se pareceria? Oferecemos um exemplo prático abaixo, construído de acordo com o princípio negativo básico subjacente ao inquérito científico em geral: qualquer descrição deve pôr em primeiro plano tanto o desconhecido quanto o irreconhecível. É simplesmente dissimulado fingir que um mundo comunista poderia ser imaginado por indivíduos cujo total conjunto de experiências é o da sociedade capitalista. Mesmo que fôssemos capazes de rascunhar algumas condições técnicas ou sociais necessárias para tal mundo emergir, esse mundo teria de ser fundamentalmente estranho para nós. Muitas utopias se provam fracas não apenas por sua falta de complexidade ou profundidade, mas por acreditarem que as pessoas da sociedade futura serão praticamente idênticas aquelas que compõem a sociedade atual, levando com elas as mesmas preferências, paixões e proficiências. Encontramos um comunismo coloquial, habitado por pessoas como eu ou você — esse novo mundo sendo igual ao nosso, mas melhor.

Diante disso, damos ênfase ao fato de que a revolução comunista é, fundamentalmente, uma revolução antropológica. Isso significa que é muito difícil entender como um mundo melhor se pareceria a nível cotidiano, tendo em mente que tal mundo também iria transformar aqueles que o habitam. Os pré-requisitos materiais e sociais identificáveis para esse mundo (como o fim da escassez de todas as coisas essenciais, a reabilitação ecológica e a não-dominação) permitiriam a germinação de novas culturas e modos de vida que são difíceis e até impossíveis de imaginarmos completamente. Essa dificuldade não se deve à complexidade, ou à natureza avançada de tal sociedade. Acima de tudo, damos de cara com esse mesmo problema tentando imaginar como era a vida em antigas ordens sociais, muito mais simples — ao menos no sentido técnico — do que a nossa. Independentemente de se considerar o passado ou o futuro, nosso modo de vida antropológico impõe limites ideológicos para essa imaginação. Somos criaturas quebradas, nossas mentes estão ligadas pelas próprias construções sociais que buscamos eliminar. E, enquanto o antropólogo e o arqueólogo podem, respectivamente, pesquisar modos de vida desconhecidos de outras culturas e examinar os resquícios de sua existência material, o comunista se defronta com um dilema mais difícil imposto por um “outro” que não é apenas culturalmente distante, mas também preso fora do alcance da nossa visão pelo fluxo progressivo do tempo, sem o menor dos fragmentos arqueológicos dos quais podemos reconstruir o todo.

Abaixo, oferecemos então uma ficção prática enraizada na crítica negativa. Ao longo dela, iremos contrapor a narrativa do que pensamos ser os erros comuns que assolam o imaginário político enquanto enfatizamos o desconhecimento intrínseco e o florescimento cultural dinâmico de um mundo comunista. Embora o contraste entre ficção prática e crítica negativa possa parecer paradoxal — uma utopia anti-utópica — tal procedimento é a natureza do inquérito científico. Como em qualquer inquérito científico, os modelos que apresentamos aqui são, em última análise, provisórios. Mas, sem qualquer habilidade de observar diretamente ou experimentar, um certo grau de rigor fictício é fulcral na sua construção. A imaginação deve ser sujeitada a pelo menos um nível mínimo de constrições reais. Entre estas estão as “forças sociais” e “forças políticas, de classe”, produtos do curso da história, que Lênin enfatiza. Somado a isso, ressaltamos aqui o papel igualmente proeminente das “forças produtivas” enquanto campos concretos de poder social, irredutíveis às suas características técnicas. Na verdade, argumentamos que a falha de praticamente toda visão utópica existente hoje se manifesta fortemente em seu trato da questão da produção, que é ou completamente ignorada, presumida como sendo uma questão puramente técnico-ecológica, que é melhor deixar para os experts, ou entendida como sendo tão completamente subordinada à lógica capitalista em que práticas agrícolas e industriais prevalentes devem ser uniforme e fundamentalmente substituídas — pelo quê exatamente, raramente é esclarecido, apesar de que acenos são frequentemente feitos na direção da autarquia. Questões de localidade e o processo exato de produção servem, no primeiro momento, como lentes trazendo foco para nossa própria utopia anti-utópica ou, de modo mais simples, nossa contribuição à ficção científica do comunismo.

Os Princípios Fundamentais do Comunismo

Ao longo dessa obra, vamos orientar nossa própria narrativa enquanto um contraponto a uma visão utópica recentemente articulada pelo filósofo comunista Søren Mau em um artigo curto, escrito para o blog Verso, que entendemos como um representante de grande parte do gênero. Mesmo que enfatizemos as deficiências dessa visão, tanto a crítica quanto a nossa alternativa à perspectiva de Mau partem do mesmo entendimento fundamental de como a sociedade capitalista opera e, por associação, o que seria necessário para derrubar tal ordem. Esse entendimento é explicado no trabalho mais longo de Mau, Compulsão Muda [mute compulsion] [4]. O livro é provavelmente o melhor resumo do pensamento marxista contemporâneo e serve como um recurso inestimável para introduzir os iniciados a muitos dos temas da crítica comunista e o aspecto do poder econômico no capitalismo. Apesar de escrito em um estilo acessível (ainda que acadêmico), o livro investe especial atenção à questões relativamente complexas de como o poder capitalista opera via divisão metabólica entre o mundo humano e não-humano, assim como debates sobre a “reconfiguração” necessária dos sistemas técnicos prevalentes que, por causa de sua sintonia com a produção capitalista, também servem como mecanismos para a dominação social.

Em contrapartida, os contornos da sociedade futura esboçados no artigo curto de Mau parecem bastante mundanos. O comunismo é simplesmente “liberdade” e “democracia” aplicados à esfera econômica. [5] Em linhas gerais, o processo complexo de reorganizar coletivamente o metabolismo social das espécies (uma tarefa que o livro infere como fundamental para o projeto comunista) é rebocado por panaceias simplistas que parecem vir dos mesmos mananciais que os socialistas utópicos originais — que, de acordo com Engels, imaginavam a sociedade comunista, essencialmente, como “uma extensão mais lógica dos princípios postos pelos grandes filósofos franceses do século XVIII”. Em virtude disso, vamos usar do trabalho mais longo e rigoroso de Mau para argumentar contra a visão prática do comunismo, esboçada em seu artigo mais curto. Apesar de que esse processo é de alguma forma irônico, seu propósito é ressaltar o fato de que até a teoria mais rigorosa pode reproduzir mistificações ideológicas quando seus autores tentam traduzi-las, em esquemas aparentemente práticos, sem aplicar o mesmo rigor ao processo de tradução e a complexidade emergente que surge do entrelaçar bagunçado de questões técnicas e teóricas na esfera prática.

No nível mais básico, não discordamos de Mau sobre as condições mínimas para a sociedade comunista. Na explicação do que é o comunismo, Mau se atém a duas teses principais, expostas no título de sua obra e seu subtítulo, respectivamente: “Comunismo é Liberdade” e “Comunismo é Democracia”. Essas são as formas mais acessíveis, embora facilmente mal traduzidas, de argumentar que o comunismo é uma sociedade organizada de acordo com o princípio da tradição republicana. Como William Clare Roberts explica: “Os princípios aos quais está comprometido o socialismo, de acordo com Marx, não são a igualdade e a comunidade, mas a liberdade - concebida como não-dominação - e a associação que garante e expressa essa liberdade” [6]. De outro modo, em vez de uma visão mais positiva de liberdade enquanto “auto-maestria do indivíduo ou coletivo”, Marx enfatiza uma visão negativa, onde a dominação social que define o capitalismo (e todas as sociedades de classe anteriores) pode ser repelida apenas pela criação de uma “associação de trabalhadores livres e iguais”, descrita por Roberts como “republicanismo no reino da produção” [7] e por Mau enquanto “democracia” estendida à esfera econômica.

Independentemente de quanto peso seja colocado na dívida de Marx com o republicanismo radical ou se uma “associação de produtores livres e iguais” oferece um resumo adequado do que objetiva o comunismo, a “não-dominação”, na nossa perspectiva, vai servir como um atalho extremamente útil, “bom o suficiente” para descrever o princípio norteador mínimo para uma sociedade comunista. E isso nos permite fazer mais uma colocação: o comunismo não é um “estágio final” da organização social humana que é atingido em um ponto particular do desenvolvimento das forças produtivas; na verdade, ele assombrou toda a história da sociedade de classes de certo modo. Podemos até dizer que a “ideia comunista” animou revoltas contra a dominação social e inspirou formas de organização igualitárias (agora há muito tempo derrotadas) desde (e até mesmo antes) da antiguidade.[8] Ante o exposto, o tema da não-dominação nos permite traçar o fio vermelho perpassando várias lutas igualitárias ao longo da história humana.

Até mesmo as sociedades consideradas anarquistas acéfalas, e entre elas todas as formas de luta comunista contra sistemas de classe pré-capitalistas, estavam posicionadas em um mundo material no qual o metabolismo humano com a natureza ainda era, majoritariamente, uma questão local, definida pelas formas de produção de subsistência que se apoiavam diretamente nos ecossistemas próximos. Nesse período, a produção de subsistência proveu tanto a fonte do poder para as classes dominantes pré-capitalistas quanto serviu de condição para a possibilidade de várias formas de separatismo igualitário. A emergência do capitalismo junto ao seu cercamento de terras mudou definitivamente essas condições. Uma de suas consequências é que os pré-requisitos para qualquer sociedade comunista ganharam um novo e elevado grau de complexidade — e é nesse sentido que o “comunismo” verdadeiro é criado (i.e, um comunismo “moderno” ou “marxiano”), enquanto concepção de uma sociedade essencialmente global, exigindo formas de deliberação e planejamento que muito excedem as antigas capacidades das escalas locais, algumas das quais vão ser necessariamente planetárias em seu escopo.

Em seu livro, o próprio Mau resume os aspectos fundamentais que distinguem o capitalismo das formas de dominação social que o precederam: sociedades de classe pré-capitalistas que, em última análise, se apoiavam na extração de um certo excedente de produtores que ainda estavam intimamente ligados aos meios de produção (vide a Talha, um imposto sobre o saldo dos grãos produzidos pelos camponeses para encher os celeiros do império, com o restante servindo como fonte de subsistência), para os quais o processo de produção ainda era relativamente transparente. Todavia, no capitalismo, o poder opera através de uma “divisão do metabolismo humano” que separa produtores de qualquer controle direto sobre os meios de sua própria subsistência, podendo agora acessá-los somente através de um sistema competitivo de propriedade ao qual foi inserida essa brecha metabólica e, consequentemente, alargando-a. [9] Uma vez que uma pequena fração da população possui a maior parte dessa propriedade — especialmente as ferramentas, terra e outras infraestruturas necessárias para produzir as coisas que mantêm as pessoas vivas e a sociedade funcionando — a maioria precisa então trabalhar por dinheiro para garantir sua própria sobrevivência. E trabalhar por dinheiro também significa trabalhar sob o comando (mesmo que indireto) deste pequeno grupo de pessoas que possuem a maioria dos recursos da sociedade. Mau explica que, no capitalismo, “a dominação de classe se refere, portanto, a relação entre aqueles que controlam as condições de reprodução social e aqueles que são excluídos do acesso às condições de reprodução social”.[10] Amadeo bordiga, co-fundador do partido comunista italiano, oferece uma definição ainda mais sucinta: “[…] a partir do momento que os salários são pagos em dinheiro e com esse dinheiro você compra comida, você tem capitalismo”.[11] Ainda dentro desse escopo, o comunismo exigiria a abolição do dinheiro e, por tabela, do sistema de mercado que o representa, visto que tais elementos são eles mesmos os alicerces materiais da forma de dominação social especificamente capitalista infiltrados na lacuna entre a espécie humana e os meios de subsistência.

Mas o capitalismo também é único na medida em que transforma ambos os lados da lacuna metabólica, modificando em definitivo o mundo não-humano ao passo em que torna a espécie humana mais dependente em sistemas técnicos complexos, mais neblinados, para que possa sobreviver. Isso tem sérias implicações políticas. Para Marx, a avaliação precisa do que significou o advento da indústria moderna foi, precisamente, o que distinguiu o comunismo dos esquemas dos socialistas utópicos mais antigos, que advogavam por várias formas distintas de “separatismo dos trabalhadores”, relacionado ao reavivamento das formas de produção artesanal distantes do sistema capitalista. Em poucas palavras, a estratégia utópica era sair da sociedade capitalista ou recuar para suas bordas, construindo pacificamente um mundo novo ou usando-as como plataformas de lançamento para combater a decadência capitalista por fora. Marx, no entanto, deduziu que a indústria moderna e, associada a ela, a construção do poder estatal, condenaram tal estratégia ao fracasso desde o início. Como descreve Roberts:

“O desenvolvimento e avanço do regime capitalista, argumenta [Marx], erradica qualquer condição para a independência. Torna todo trabalhador dependente de incontáveis outros. Destrói as habilidades necessárias para a produção independente e propaga um gosto das boas coisas que podem vir apenas do trabalho cooperativo em uma escala massiva.” [12] No entanto, contra determinado subgênero aceleracionista do utopismo atual (aquele do tipo “pós-escassez” ou “automação completa”), isso não significa que o capitalismo é necessário em um sentido positivo: “Em nenhum trecho do Capital, Marx argumenta ou implica que o capitalismo desenvolveu as forças produtivas humanas ao ponto de podermos atender a necessidade de todos, ou que tal desenvolvimento constituiria um limiar que, antes do qual, a realização do comunismo seria impossível”. Por outro lado, o capitalismo moldou as condições do conflito de classes e os prospectos de uma sociedade comunista em um sentido muito negativo: “por um lado, ao destruir a capacidade dos trabalhadores de fazerem sozinhos e pelos outros, acaba por criar desastres tão imensos em uma escala tão grande que apenas enormes esforços coletivos poderiam resolvê-los”.[13]

Quando o capitalismo não cria as condições positivas necessárias para o comunismo, faz brotar necessidades negativas na forma de novos desafios qualitativos que a luta comunista precisa superar. Em outros termos, reconfigura as condições básicas para a possibilidade de uma sociedade comunista. Foi por causa do metabolismo material grandemente transformado que a produção capitalista se impôs entre a espécie humana e o mundo não-humano, e, por causa das maneiras complexas que a dominação social se entrelaçou nesse metabolismo, a não-dominação permanece uma definição, mas não mais suficiente para definir o projeto comunista. As formas pré-capitalistas de dominação operaram várias vezes através do controle direto sobre as pessoas, terras, e os materiais básicos de produção (nomeadamente grãos e gado, mas também materiais coletados e a caça selvagem). O poder social foi essencialmente obtido dos excedentes que espumavam no topo de piscinas — de outros modos locais — de subsistência. De modo similar, várias ordens sociais anárquicas ou tradicionais foram capazes de se manter fora do alcance das sociedades hierárquicas (ou no despertar do colapso delas) porque a subsistência local ainda podia servir como base material de sua independência. Em um nível puramente técnico, isso simplesmente não é mais possível — a menos que tomemos como pré-condição para o nosso programa político o genocídio em massa do grosso da humanidade.[14]

Ademais, o problema não é meramente uma questão técnica de se a subsistência local pode ou não ser reinventada. Sob o capitalismo, a dominação social é agora inscrita na malha que conecta a lacuna metabólica. Isto é, a não-dominação precisa ser entalhada no metabolismo das espécies na mesma escala. E, ainda que reduzida às mais simples medidas, essa escala é gigantesca: a massa total da “tecnosfera” construída pela humanidade, visível em nossas enormes infra-estruturas de aço e concreto, é hoje praticamente igual ao agregado de biomassa de toda a vida terrestre. [15] A agricultura industrial acarretou na degeneração sistemática da qualidade do solo e acelerou em definitivo o ciclo planetário de nitrogênio.[16] E mais do que nunca, tornou-se bastante evidente que o clima agora foi irreversivelmente modificado pela queima de combustíveis fósseis para servir aos imperativos da produção capitalista. Na esfera social, a reconfiguração agora implica descobrir, desatar e, por fim, desfazer os meios bem mais complexos pelos quais a dominação é sustentada — especialmente a disciplina temporal abstrata do trabalho assalariado. Por todos esses motivos, o comunismo não pode mais ser definido simplesmente como não-dominação. Ao invés disso, uma sociedade comunista é uma na qual a não-dominação é tornada possível pela abundância material e tempo livre, garantidos através da aplicação da ciência à produção e através de métodos cooperativos de deliberação social e empoderamento que atravessam por completo a vida cotidiana, elevando-se aos novos sistemas de gerenciamento do metabolismo planetário. Para Marx, o reconhecimento desse ponto serviu como uma divisão política crucial com o antigo movimento socialista ao passo em que separou os esquemas que estavam destinados a apenas reproduzir o capitalismo, ou ser esmagado pelo Estado, daqueles que tinham algum prospecto de construir um mundo comunista.

Localidades

Atualmente, ainda há uma infeliz tendência de imaginar que a sociedade pós-capitalista deverá ser fundamentada em formas comunitárias e localizadas de viver. Assume-se que o refúgio do mercado globalizado possa ser encontrado em seu oposto: sistemas de não-mercado (ou mistos), estruturados sob a égide da autarquia, onde a produção e consumo são maximamente autossuficientes. Sob essa perspectiva, Mau engendra o seguinte:

“Vamos chamar a unidade básica da estrutura institucional do comunismo de comuna. Todos teriam que escolher um lar-comuna, porém cada um poderia ser capaz de viver em qualquer comuna que escolhesse. As Comunas poderiam variar de tamanho, a depender da sua pré-história revolucionária, bem como sua geografia particular, contexto cultural e histórico. Algumas comunas irão ser massivamente urbanizadas ao ponto de ter que contabilizar seus habitantes — vamos chamar eles de communards — em milhões, enquanto que as comunas em áreas esparsamente populadas ou terras desoladas comportariam poucos habitantes, ao menos para se ter uma ideia. […]

Idealmente, cada comuna teria o controle de tudo necessário para garantir as necessidades de seus communards, de terra, água, energia, e outros recursos naturais, até força de trabalho, tecnologia, pesquisa, e educação. Decisões geralmente deverão ser tomadas por — ou o mais próximo possível — aqueles afetados por elas, para garantir um alto grau de autonomia e minimizar o risco de uma centralização não democrática do poder.”

Mau, de antemão, segue essa perspectiva com a afirmativa de que “na prática, esse é um ideal impossível de se realizar, em partes, porque uma das condições básicas de todas as comunas é uma biosfera estável, e isso só pode ser garantido por meio de um tipo de regulação global sobre o uso comum dos recursos naturais.” Mau também admite que essa visão existe em tensão com a necessidade de alguns assuntos, como a preocupação ecológica, a serem organizados por meio de uma cooperação global. Ele postula que poderia haver cooperação entre as comunas de um modo que “poderia provavelmente resultar em algum tipo de estrutura piramidal composta por instituições políticas com poder de decisão, como também fóruns de coordenação, compartilhamento de conhecimento, e ajuda recíproca.” Mesmo assim, sua visão permanece profundamente local.

Francamente, as comunas de Mau parecem ser mais ou menos países em miniatura. A visão dele sobre o comunismo leva à imagem ideológica base da sociedade que já temos – a de um mundo governado por divisões territoriais que se traduzem em divisões culturais, administrativas e econômicas – e simplesmente reproduz isto até uma escala mais granular. Se nós fossemos mais austeros, poderíamos até sugerir que essas visões localistas apresentam alguma semelhança com as formas comunitaristas de extrema-direita. Em todo o mundo, a direita vem há muito tempo evocando óticas similares de autossuficiência local, e nacionalistas têm comumente defendido unidades territoriais menores mais ajustadas às diferenças mínimas de linguagem e cultura. Os comunistas que advogam por sistemas locais de produção e administração devem ao menos explicar como os seus esquemas não iriam simplesmente reproduzir as várias formas de exclusão e xenofobia inerentes a esses projetos comunitaristas. A maioria das tentativas de evitar esses resultados implicam na necessidade de instituições de escalas ligeiramente diferentes, que costumam permanecer um tanto nebulosas — geralmente, uma definição vaga de “confederação” ou algo semelhante ao que Mau descreve como uma “estrutura piramidal”. A exemplo disso, quando Mau afirma que todos poderiam ser livres para escolher seu “lar-comuna” e de “viver em qualquer comuna que quisessem,” a implicação desta afirmação é que ainda iria existir algum tipo de poder superior capaz de impedir que os locais excluam forasteiros — mesmo se essa exclusão fosse deliberada democraticamente pela localidade.

Desse modo, a “democracia” não pode descrever adequadamente as formas de poder e deliberação que teriam de prevalecer em uma sociedade comunista, tampouco é a localidade que vai cumprir o papel de unidade administrativa natural ou dada dessa deliberação. Em todo caso, nossa principal objeção não se trata pura e simplesmente da localização, mas sim a ideia de que é possível (e até desejável) gerir localmente recursos como “terra, água, energia, [e] tecnologia”. No grau puramente técnico, a realidade é que uma pequena parte dessas coisas pode ser posta à nível local, visando sustentar populações modernas, em uma comuna com proporções de uma cidade. Ainda que se assuma uma determinada comuna com uma longa extensão de terra arável, amplas reservas de água doce, e bons serviços de energia renovável, nenhum desses recursos podem ser utilizados com eficiência sem a atual tecnologia industrial que é, no geral, extremamente difícil de ser produzida localmente. Boa sorte tentando construir e manter uma planta de purificação de água sem insumos do exterior em um raio de 200 quilômetros! [17] O mesmo pode ser dito de outras tecnologias infraestruturais importantes como os painéis solares, barragens hidroelétricas, tratores, estações de tratamento de esgoto, entre outras coisas. Isso é igualmente verdade, em alguns casos ainda mais, para tecnologias não-infraestruturais, mas tão essenciais quanto, vide os micro-eletrônicos, fármacos, derivados de metal, etc. Existem casos em que pode fazer sentido restaurar tecnologias “arcaicas” para fins sociais: como por exemplo, atender à demanda por produtos locais, como móveis, por meio da prática do artesanato local. Mas até essas indústrias exigiriam insumos básicos de matéria-prima que iriam exceder os suprimentos locais, conforme ditado pelos limites ecológicos. Caso a “tecnologia” fosse criada a nível comunal, a maioria das comunas de Mau estariam limitadas à tecnologias não tão mais sofisticadas que as da Europa medieval. E isso implicaria necessariamente em uma drástica redução na população global.

Hoerniamente, tais limitações tecnológicas demonstram que os processos que demandam cooperação inter-comunal não seriam exceção à norma localista, pelo contrário, são a pré-condição para o tipo de liberdade comunista que Mau formula. Isso, junto ao problema supracitado de garantir a não-dominação, sugere que as relações sociais cruciais — aquelas necessárias para assegurar que certas frações da população não estejam subjugando outras — não são as que existem dentro das localidades, mas as que prevalecem entre elas. Inversamente, as relações Interterritoriais e sistemas industriais seriam o pilar para os arranjos sociais contidos localmente. Isso para não mencionar que toda a produção precisaria ser centralizada globalmente. Nós concordamos que uma parte considerável da produção deverá ser local, e que o resgate dos vários tipos de habilidades artesanais e ecológicas “arcaicas” deveria ser uma prioridade. Uma das principais tarefas “antropológicas”, enquanto se constrói uma sociedade comunista, é assegurar que formas de conhecimentos produtivos e ecológicos, pessoais e socialmente satisfatórios sejam cultivados, restaurando capacidades perdidas ou atrofiadas de uma espécie mutilada pela degradante lógica de automação do modo de produção capitalista. Formas de gestão ecológica com relativa predominância de mão-de-obra e a localização crescente da produção alimentícia são pré-requisitos para a restauração ambiental que, em última análise, se transformam em imperativos planetários como, por exemplo, a administração de emissões de gases ou a gestão do ciclo de nitrogênio. Essas habilidades só podem ser aprendidas na esfera prática e são geralmente melhor ensinadas no nível local.

Mesmo onde a administração local possui senso técnico, já se supõe que a produção localizada e o conhecimento agroecológico vão ser utilizados mais para servir a uma função social do que por razões técnicas — como parte integrante de um aparato muito maior para cultivo e transformação (simultaneamente individual e social). Entretanto, um fator igualmente essencial desse processo mais amplo de produção de cultivo seria a introdução de formas abstratas de conhecimento — i.e, as ciências naturais — e a participação ativa em esquemas colaborativos de cooperação ecológica e industrial, abrangendo várias localidades. Sendo assim, chamar o ressurgimento da difusão de conhecimento prático de “artesanal” pode ser uma metáfora equivocada. O núcleo da questão é que a subjetividade produtiva da espécie não se assemelharia nem ao tipo fragmentado e mutilado observado no proletariado moderno, nem ao camponês artesão tolhido pela intensidade do trabalho de subsistência. Não obstante, a subjetividade produtiva comunista reúne ambos os conhecimentos prático e abstrato em uma forma histórica inédita.

Nessa toada, os componentes necessários, até mesmo para formas localizadas de produção, são geralmente originados a partir de processos que fazem sentido somente no interior da lógica de linhas de produção em massa e, ao mesmo tempo, fornecem e recebem produtos de áreas geográficas muito abrangentes. Em seguida, vamos explorar alguns aspectos técnicos de como essa produção se pareceria. De todo modo, as características técnicas da produção são, de modo geral, secundárias. Elas fornecem alguns limites materiais, canais ou potenciais que devem ser escolhidos através de um processo de deliberação social. Contudo, o problema surge na medida em que as ideias de Mau e, argumentaríamos, a maioria esmagadora das fábulas utópicas semelhantes passam a ignorar, em seu conteúdo, essas limitações técnicas. Consequentemente, a imagem da sociedade emergente é uma onde a deliberação parece ocorrer num vácuo. Além disso, apesar de Mau afirmar estar projetando uma situação na qual a “democracia” foi estendida à produção, a política parece ter um papel majoritariamente situado nas esferas “civis” da vizinhança e da cidade, em vez de algum tipo de configuração industrial. Na verdade, a “comuna” geograficamente delimitada parece ter substituído a esfera industrial por algo análogo à “sociedade civil”, idealizada na filosofia política liberal. E é apenas nesse contexto impossível que algum tipo de confederação piramidal de comunas de democracia direta e geograficamente delimitada fazem algum sentido, porque essas comunas não têm qualquer função para além do mandato vagamente definido posto a representar as vontades de seus interessados.

Nesse caso, o que poderia servir como uma forma de deliberação adequada a escala inevitável da maior parte da administração ecológica e de produção? Antes de tudo, precisamos resistir à tentativa de imaginar que uma sociedade comunista seria “erigida” a partir das mesmas unidades atomizadas, independentemente de as entendermos como unidades geográficas ou como elementos funcionais. Como afirma Roberts:

“As configurações institucionais exatas mais adequadas a qualquer grupo particular de trabalhadores livres e associados vão ter de levar em conta as particularidades de sua situação, de seus recursos comuns, de suas características, histórias e interrelações. Aqueles melhor situados para conhecer essas particularidades vão ser esses mesmos trabalhadores livres e associados” [18]

Em outras palavras, o comunismo não é uma monocultura social. Assim como as velhas formas de subsistência agroecológica local forneceram base para uma ampla variedade de práticas sociais, a nova fundação produtiva planetária de uma sociedade comunista também conduziria a uma florescência diversa de novos modos de vida. O longo processo de derrubar o capitalismo e construir um mundo comunista seria em si mesmo um mosaico de novas formas sociais através do caos da transição. [19] Muitas instituições comunistas provavelmente seriam “impostas” pela diversidade de grupos funcionais que surgem por vários motivos na revolução e nas seguintes “fases baixas” de uma sociedade comunista. Em última análise, isso significa que não podemos esperar ser capazes de prevê-las em qualquer detalhe, para além de presumir alguns padrões negativos (ausência de dominação, a sustentação de alguns princípios básicos de associação voluntária, proibições de práticas indevidas destrutivas ao meio ambiente, etc) isso poderia ser garantido por instituições deliberativas de grande escala.

Associação e Deliberação

Instituições geográficas, com toda certeza, fariam parte disso. No entanto, em vez de serem simplesmente escaladas de acordo com a população, as associações tenderiam mais a estar em sintonia com o “tamanho” funcional de determinados sistemas técnicos ou ecológicos — por exemplo, uma bacia hidrográfica e a indústria de processamento de água que dela se alimenta e retroalimenta. [20] Mas, dado as características não-locais da maioria dos sistemas produtivos, reprodutivos e ecológicos, assumiríamos que a maioria das instituições importantes da vida cotidiana e do sistema social como um todo não estariam limitadas pela localidade. Contra a “comuna” geográfica sugerida por Mau, podemos então retornar à noção do próprio Marx de “associações” voluntárias (“associações de produtores” no original, mas apenas no sentido de que a divisão entre indústria e ecologia, produção e reprodução, trabalho e vida foi deteriorada). Apesar de necessariamente vaga, a ideia de uma “associação”, ainda assim, coloca em primeiro plano a natureza intencional e cooperativa de tais instituições, que deveriam ser inerentemente funcionais em vez de geográficas. Como Aaron Benanav argumenta em um rascunho utópico parecido, inspirado em parte pelo trabalho do pensador comunista e filósofo da ciência do início do século XX Otto Neurath: “o que precisamos não é de um protocolo de escala societal, mas de vários protocolos - muitas formas, estruturas de comunicação que permitam que as pessoas tomem decisões juntas.” como fazemos aqui, Benanav também adota a noção de “produtores livremente associados” para descrever essa variedade de “protocolos” e semelhantemente ressalta que “a coordenação deve ocorrer […] principalmente entre e dentro das associações”, “que podem ser compostas de produtores, consumidores e outros grupos de pessoas com identidades e interesses em comum.”

Não devemos presumir que associações teriam todas de ser administradas em um estilo homogêneo e de democracia direta. Como Benanav argumenta: “a tomada de decisões verdadeiramente democráticas sobre a produção não podem ser uma simples questão de contínuos plebiscitos em redes sociais passando pela tela do celular de alguém - pelo simples motivo de que falta a alguns indivíduos o conhecimento prático necessário para tomar a maior parte das decisões de produção”. Em vez de uma “democracia”, que para a maioria dos leitores implica em algo que vai do consenso de democracia direta, até sistemas representativos de governo administrados de acordo com a decisão da maioria, imaginamos que o comunismo seria administrado através de uma gama de sistemas “deliberativos” irredutíveis a essas formas arcaicas de “governo democrático” — que desde suas origens, serviram como disfarce do governo das elites. Mecanismos como o voto, consenso e delegação representativa provavelmente seriam parte dessas práticas deliberativas, mas tais práticas não seriam redutíveis a seus mecanismos. Onde for possível, esses sistemas deliberativos podem ceder apenas a forma verdadeira da democracia: democracia por sorteio. Mas a deliberação deve sempre, em última instância, tomar a forma que melhor sirva às características e funções de uma associação particular. O comunismo então não é definido por um mecanismo deliberativo específico — em outras palavras, o comunismo não é democracia — mas sim pela penetração da deliberação consciente em todas as facetas do metabolismo social.

Muitas das “associações de produtores” encarregadas de fabricar e distribuir bens provavelmente poderiam ter suas genealogias traçadas retornando até aos sindicatos industriais, ministérios governamentais, associações científicas e profissionais, laboratórios de universidades, alianças revolucionárias provisórias, e é claro as empresas capitalistas que algum dia controlaram a totalidade da supply chain. Mas isso seria apenas uma ancestralidade distante, cada uma oferecendo poucos traços genéticos para instituições desenvolvidas do zero no caminho da luta revolucionária e da construção comunista. É difícil prever exatamente como essa reestruturação se pareceria, mas algumas tendências são mais prováveis: Em primeiro lugar, as cadeias de autoridade que existiram nessas antigas instituições seriam sujeitas a reformas pensadas para reorientar as capacidades para propósitos revolucionários, a fim de eliminar a dominação nessa instituição. Isso envolveria a construção intencional, através do experimento, de mecanismos deliberativos adequados à função da associação. Devido a sua natureza técnica, essas associações são pouco prováveis de sequer se tornar democracias geridas pela maioria, mas podemos ver uma combinação de consenso classificado pelo nível de conhecimento parecido com aquele utilizado no gerenciamento de laboratórios científicos avançados dos dias atuais, e algum tipo de democracia por sorteio, onde quaisquer posições oficiais ou representativas tornadas necessárias seriam preenchidas por uma seleção aleatória de uma base qualificada de membros — com essas “qualificações” determinadas através de meios deliberativos por alguma entidade maior (ou pela totalidade) da associação. Apesar do fato de que essas não vão ser simples democracias geridas pela maioria, na falta de uma palavra melhor podemos chamar essa primeira tendência de “democratização”.

Em segundo lugar, haveria uma tendência em direção à “aglomeração”. Isso não seria, no entanto, um processo uniforme em direção a uma centralização cada vez maior no nível organizacional. Em vez disso, a aglomeração estaria em sintonia com os requisitos técnicos e sociais de determinada linha de produção. Em sua mais mínima definição, podemos pensar na aglomeração como a tendência de centralizar informação sobre determinado campo de produção em uma única e universalmente acessível plataforma, algo como uma Wikipédia industrial, para minorar redundâncias funcionais desnecessárias, e quando útil, para apresentar e supervisionar padrões básicos para melhores práticas. Mas em muitos casos, como explicamos abaixo, uma centralização geográfica e organizacionalmente mais direta faria sentido, caso em que essa tendência à aglomeração seria mais literal.

Em terceiro lugar, haveria uma tendência à “integração.” Com isso, as antigas divisões profissionais e institucionais, integrariam as esferas de atividade anteriormente segregadas de modo que tais organizações possam servir novos e amplos propósitos sociais. De novo, o caminho exato da integração é impossível de se prever. A estrutura organizacional exata também é difícil de esboçar, já que a integração provavelmente envolveria tanto a subsunção direta de novas tarefas em uma determinada associação quanto a variedade de consultorias, confederações ou sobreposição parcial de associações funcionalmente distintas. Mas um exemplo óbvio seria a combinação de instituições ecológicas e industriais: a produção de qualquer produto teria de, desde o princípio, rastrear seu impacto metabólico. E é possível imaginar um processo similar integrando a agricultura e a saúde pública, educação e indústria, e, claro, a divisão mais geral entre as esferas produtivas e reprodutivas.

Logicamente, visualizar os pormenores dos aspectos rudimentares que essas associações “industriais” (na falta de uma palavra melhor) poderiam apresentar é essencial, porque, diferente de Mau, não pensamos na produção comunista enquanto um estado de coisas extremamente localizado que vez ou outra apresenta uma cooperação não-local. O modo comunista de produção terá como fundamento o gerenciamento consciente e deliberado de todo o metabolismo humano com o mundo não-humano. Será, portanto, intrinsecamente global e fundamentalmente científico, mesmo quando parte de suas instâncias pareçam auto-contidas ou como sendo “retornos” a uma vida rural de produção artesanal envolvida no desabrochar de novas culturas autóctones, ou na retomada de diversas línguas e modos de vidas locais libertos de séculos de colonização. Isso significa que muitas associações fundacionais serão explicitamente planetárias em natureza, e até as associações “locais” terão uma dimensão global implícita na medida em que se apoiarem nessas relações deliberativas globais. Na maioria dos casos, essa aglomeração global vai se manter solta, com informação e afiliação centralizadas, mas com tomada de decisão amplamente dispersa. Em alguns casos, certas associações serão planetárias lato sensu. Podemos imaginar, por exemplo, uma “liga atmosférica” feita de associações de cientistas climáticos, associações de produtores em indústrias de geo-engenharia colocando esforços para diminuir o CO² atmosférico remanescente da era capitalista, balanceando emissões da produção comunista (a exemplo de várias formas de captura de carbono, possivelmente incluindo tecnologias de captação direta do ar que, hoje, não são viáveis e dimensionáveis), representantes de associações científicas e silviculturais supervisionando determinados sistemas ecológicos relacionados (tais como a reabilitação da tundra e outros sumidouros de carbono), representantes de várias indústrias nas quais as emissões são uma necessidade inevitável (talvez o petróleo utilizado em plásticos de grau clínico ou para certas epóxis utilizadas em compósitos avançados), e várias associações subsidiárias encarregadas de coisas como educação pública e o treinamento de futuros climatologistas.

Parecido com isso, haveria algumas associações especiais encarregadas da manutenção do substrato básico do próprio sistema social — em outras palavras, de garantir que a dominação não surja novamente. Muitas dessas teriam de ter um escopo planetário, mesmo que muitas de suas atividades fossem locais. Essas associações provavelmente se desenvolveriam a partir de instituições excepcionalmente revolucionárias que supervisionaram a destruição da dominação social capitalista e ficaram de guarda contra seu ressurgimento no período pós-revolucionário imediato. Mesmo que, desde então, tivessem abandonado a maior parte de suas características indesejáveis que um dia foram necessárias para o conflito aberto com o mundo capitalista, essas instituições, apesar disso, teriam de se manter como algo mais próximo de um corpo disciplinar, judicial ou militar na sociedade comunista. Eles iriam se sobrepor de alguma forma às tarefas mais convencionais de associações locais, funcionando enquanto árbitros sociais, mas não seriam simplesmente a mesma forma de arbitração realizada em maiores escalas. [21]

Podemos também imaginar associações especiais que mantém o registro ou até proíbem a produção de materiais particularmente perigosos (armas nucleares sendo o exemplo óbvio), que monitorizem e se mobilizem contra cenários apocalípticos (meteoros errantes, pandemias mortais, etc) ou que sejam capazes de aplicar ações restritivas contra atividades extremamente destrutivas (por exemplo, poluir um curso d’água, caça excessiva, queima de carvão) ou que re-instituem a dominação social e minam a base da associação voluntária (como por exemplo, tornar a subsistência dependente em alguma nova forma de dinheiro, impedir estrangeiros de viver em uma área que é ecológica e industrialmente capaz de manter uma população maior, reinventar o domínio privado sobre infraestruturas socialmente necessárias, reviver formas de poder e preconceito de gênero, escravizar pessoas, etc) independentemente de se essas atividades tenham sido decididas por uma associação individual ou até por uma localidade inteira. Delimitar e deliberar sobre a natureza e extensão dos poderes excepcionais dessas organizações especiais seria um esforço necessariamente global, fundacional e contínuo — o mais próximo de uma formulação de um tipo de “constituição” acordada para a espécie como um todo.

A esse respeito, Mau argumenta que “o comunismo é liberdade”. Mesmo isso não estando errado, iríamos contrapor e dizer que o comunismo é mais especificamente tempo livre. [22] Na esfera econômica, onde o tempo trabalhado é catalisado pela maquinaria de propósito fixo, a necessidade de trabalho encolhe como um todo e se condensa em torno de tarefas que são as mais críticas para a reprodução da sociedade comunista como tal. Mesmo incluindo todos os serviços necessários para manter a vida cotidiana em cada localidade, registrando as contribuições reduzidas de crianças, idosos, doentes, aqueles com necessidades especiais, ou ,até mesmo, aqueles poucos intratáveis que recusam o trabalho por completo como um tipo de declaração pessoal ou artística, isso ainda não seria mais do que algumas horas por semana por indivíduo.[23] O tempo que resta para as pessoas pode ser gasto livremente em associação uns com os outros. Não seriam mais preciso longas e odiosas horas trabalhadas, nem impulsos que reduzissem a qualidade ou segurança das condições de trabalho pelo bem do lucro disfarçado de “eficiência”. As pessoas vão escolher performar determinado processo produtivo seja por serem entusiastas do mesmo ou por conta de seu desejo pelo resultado do processo ser alto o suficiente para justificar o trabalho. Processos que ninguém quer simplesmente não são feitos. Se isso incomoda alguém, eles são livres para encontrar outras pessoas incomodadas com isso e formar uma associação para esse propósito. Se existem atividades particularmente detestáveis ou impopulares, que ainda assim são essenciais, a quantidade de trabalho necessário ainda vai se realizar, do modo mais rápido e indolor possível. Podemos imaginar associações especiais formadas com o propósito de otimizar esses processos e recrutar indivíduos particularmente altruístas que despenderiam algumas poucas horas para estas tarefas. Numa relação material mais básica, são os produtos de determinados processos críticos da produção que vão permitir a liberdade de associar e produzir uma variedade de bens. A expansão do tempo livre e da experimentação criativa é o que permite aos communards continuar revolucionando o ecossistema produtivo que gera esses produtos, funcionando como substrato basilar pelo qual a sociedade comunista floresce. A (re)construção e fortalecimento das causas e efeitos da extensão do tempo livre são tão somente o resultado esperado do ciclo de retroalimentação ao qual estão vinculados.

Apesar de que as várias associações “especiais” devotadas às tarefas “necessárias” possam ser particularmente importantes, a maioria das associações seriam completamente convencionais, relativamente pequenas em quantidade de membros, tendo pouca relação com a produção em massa de bens. As funções exatas de tais associações seriam tão diversas que estariam além de qualquer sumário comum. Qualquer grupo de pessoas seria capaz de realizar todo tipo de associação para diversos propósitos, dentro dos limites de certas barreiras sociais e ecológicas, por meios deliberativos em várias escalas — presumindo que estes limites só são configurados quando considerados “necessários” em algum sentido. Esses limites, em partes, advém de questões providenciais, vide a proibição de usos potencialmente destrutivos de recursos locais, com essas proibições definidas por associações que tendem a usar esses recursos ou aos residentes que seriam afetados pela sua destruição. É nesse sentido que um propósito geral das associações geográficas (as “comunas” de Mau) podem ser formadas, como agências primariamente proscritivas que determinam os limites julgados desejados pelos locais impactados por determinados usos de espaço e recursos. [24]

Existe, no entanto, uma tensão básica entre a necessidade relativamente restrita de “otimizar” a produção (para liberar tempo) e as mais amplas necessidades qualitativas que tanto estruturam essa liberação quanto são possibilitadas por ela, no sentido de que a própria produção industrial seria reconfigurada para servir propósitos qualitativos completamente novos para aqueles que dela participam (em vez de ser uma necessidade relutante em que uma certa quantidade de bens simplesmente precisa ser produzido para satisfazer uma quantidade socialmente estabelecida). Em outros termos, a produção não é apenas um algoritmo no qual os produtos gerados correspondem às demandas fornecidas. Como Benanav aponta: “não importa o quão poderoso seja o algoritmo centralizador, ainda restará uma dimensão irredutivelmente política para decisões de planejamento — para as quais os cálculos algorítmicos, não importa o quão poderosos sejam, podem servir apenas como um substituto de má qualidade”. Essa é a função básica da deliberação e também o porquê de ela se estender de cima a baixo. E, de fato, a maioria das associações não teriam uma participação tão relevante na produção direta de bens. Muitas simplesmente seriam instituições para diferentes formas de arte e lazer – associações de esporte, trupes de teatro, grupos culinários – e de modo mais amplo, a destruição das divisões arcaicas entre as esferas da vida viriam dos empreendimentos educacionais, reprodutivos e científicos integrados em uma variedade de atividades descontraídas, divertidas e apaixonadas organizadas por associações de vários tipos. Por exemplo, grupos de observação de pássaros locais poderiam fornecer informações ornitológicas para bases de dados gerenciadas por associações ecológicas regionais, enquanto também supervisionam viagens educativas e de cuidado para jovens de determinada creche da área comunal. Dessa maneira, mesmo as tarefas entendidas como socialmente “necessárias” não seriam simples problemas maçantes de “trabalho”, mas rituais vivos gestando a paixão ascendente da existência humana.

O Ecossistema da Indústria

Todavia, o florescimento massivo da livre associação depende da liberação do tempo. E a liberação do tempo só se torna possível através do gerenciamento consciente do mundo material por meio do planejamento deliberativo do metabolismo humano com a natureza. Isso, por outro lado, requer um sistema industrial-ecológico apto para a produção em massa. Como Bordiga coloca, uma vez que o tempo de trabalho necessário para a reprodução básica da sociedade é reduzido a um mínimo comum, e o conhecimento científico não mais é desperdiçado, a indústria passa então a “[…] se comportar como a terra, uma vez que, como o solo, os instrumentos foram liberados de qualquer forma de possessão”. [25] Já Benanav evoca uma analogia agroecológica um pouco mais excêntrica: “O aparato produtivo teria mais em comum com uma ‘floresta alimentar’ do que com uma fábrica — um jardim de plantas comestíveis, cuidado por centenas de anos e projetado para satisfazer uma multiplicidade de necessidades, tanto espirituais quanto materiais”.

Mas, novamente, é extremamente difícil prever como exatamente as atividades — mesmo as que aparentam ser simples, como a produção de determinados bens — podem se parecer na sociedade comunista — pois os métodos técnicos atuais para produzir qualquer artefato estão ligados intrinsecamente aos padrões de “eficiência” (de lucro, disciplina de trabalho, etc.) que expressam imperativos particularmente capitalistas. Esses imperativos frequentemente parecem ter algum tipo de agência maliciosa sobre nossas vidas. Bordiga descreve o capital industrial fixo como “o monstro inimigo que paira sobre a massa de produtores”, de tal maneira que, ao monopolizar o conhecimento coletivo da espécie humana, “esse monstro está matando a própria ciência, desgovernando-a, explorando de forma criminosa seus frutos, desperdiçando a herança das gerações futuras”. [26] Mesmo que o conhecimento científico seja vital para o futuro do comunismo, as forças de produção, nesse caso, não são um aparato algorítmico neutro que pode ser simplesmente expropriado e executado para propósitos melhores — elas são a encarnação literal do monstro que se coloca à nossa frente.

Além disso, qualquer inquérito sobre qual aparência o conhecimento produtivo irá tomar quando esse monopólio monstruoso for cessado precisa antes começar com uma descrição apropriada da própria produção contemporânea e, mais importante que isso, de quais aspectos são os mais favoráveis à reconfiguração social contra aqueles que precisam ser aniquilados no decurso da construção de um ecossistema planetário industrial capaz de suportar uma sociedade comunista. Hodiernamente, os processos produtivos podem ser simplificadamente agrupados em duas categorias: alta mistura e baixo volume; baixa mistura e alto volume. [27] A “mistura” refere-se ao quão diversos são os bens/materiais criados ou processados. O “volume” é simplesmente o grosso das unidades processadas. O que exatamente constitui um volume “alto” ou “baixo” depende do tipo de bem e de qual tipo de maquinário é necessário para produzi-lo. Processos de alta mistura tendem a envolver maquinários projetados para uma reconfiguração dinâmica, enquanto processos de baixa mistura usam máquinas travadas em configurações específicas com algum tipo de arquitetura ferramental fixa. Uma oficina mecânica produzindo uma variedade de peças de aço fresadas e torneadas seria um exemplo de um processo de alta mistura, enquanto o próprio aço é produzido em uma instalação, exemplificando um processo de baixa mistura. Na realidade, grandes complexos fabris operados por vastos conglomerados industriais hoje possuem múltiplas linhas de produção operando sob um único teto, algumas das quais podem ser mais especializadas do que outras. Para simplificar, porém, vamos tratar os dois separadamente, nos referindo aos processos de alta mistura e baixo volume como “flexíveis” e os de baixa mistura e alto volume como “fixos”.

Embora seja evidente que os imperativos sociais distorcem o processo técnico de produção em direção aos seus fins, o inverso também se aplica. As leis da natureza e as características físicas de materiais particulares definem as normas básicas nas quais as forças sociais são livres para moldar a produção. Portanto, a decisão sobre a necessidade de produzir determinado item usando de um processo fixo ou flexível de produção não é apenas social. Os estilos fixo e flexível de produção possuem cada um suas vantagens e desvantagens técnicas, assim como suas vantagens e desvantagens sociais. Nenhum dos dois é inerentemente mais comunista que o outro. Entre os aspectos mais críticos que distinguem os dois estão as implicações geográficas de cada tipo de produção. Os processos de produção flexível, como sugere o nome, permitem que operadores produzam facilmente partes de muitos artefatos diferentes sem que haja muito trabalho prévio para configurar as máquinas entre cada rodagem de partes diferentes. Operadores de um dado processo flexível podem fabricar bens para satisfazer uma grande variedade de produtos às custas de serem limitados a menores níveis de produção em uma determinada unidade de tempo. Essa troca é técnica em sua natureza e vai continuar sendo a menos que haja algum tipo de descoberta de ficção científica (i.e., algum tipo de impressora molecular universal). O design das ferramentas carrega um antagonismo fundamental entre utilidade ampla vs utilidade especializada. Por esse norte, processos flexíveis seriam mais adequados para tratar de necessidades locais, com todas as localidades tendo sua própria capacidade de performar esse processo em particular. A redundância de diferentes locais com maquinários funcionalmente intercambiáveis cria uma autonomia robusta e um poder de tomada de decisões produtivas em um nível descentralizado local.

Em contraste, processos de produção fixa se apoiam na ferramentaria especializada com capacidade de produzir uma quantidade muito limitada de bens (ou até mesmo um só), mas podem, como resultado, produzir grandes quantidades de fabricados utilizando menos tempo de trabalho, em comparação, pelos seus componentes. O uso sensível do maquinário fixo concentrar-se-ia em um número menor de unidades, permitindo que o maior volume de produção fosse distribuído amplamente para regiões que possuem menor capacidade local de processamento. Tal configuração exige formas centralizadas de administração e um planejamento das questões produtivas. A distribuição geográfica exata e a intensidade dessas indústrias dependerá de várias características físicas: o peso de seus inputs e de seus produtos finais (e portanto a intensidade de energia do transporte), a concentração espacial de recursos naturais necessários (como veios de minérios e salmouras minerais), o volume e forma de dejetos inevitáveis que precisam ser isolados ou reduzidos (incluindo coisas como poluição sonora e visual), e os benefícios potenciais oferecidos por várias economias de escala em termos de consumo energético e material, ou a distribuição final do produto acabado. Analogamente, levando em consideração que uma indústria fixa de larga-escala iria, simultaneamente, exigir e produzir um certo número de indivíduos com uma expertise específica do setor, questões fundamentais de alocação populacional e a equidade do conhecimento técnico também deveriam ser consideradas.

Hoje, o grau em que os processos fixos e flexíveis de produção são, ao mesmo tempo, inextricáveis e reciprocamente vitais torna-se invisível no cotidiano do consumidor final de mercadorias. As “fábricas da cidade”, bem como as fábricas chinesas e vietnamitas, tomam lugar dentro de um mesmo complexo. De modo mais geral, o ferramental especializado para qualquer processo fixo determinado é fabricado em uma linha de produção flexível, capaz de engendrar uma coleção de variados designs de ferramentas distintas. Paralelamente, os fatores de produção para esses processos flexíveis na forma de materiais, combustíveis/energia e peças genéricas são propriamente fabricados em grandes volumes usando um processo de produção fixo. É a serpente que come a própria cauda. Autarquias industriais localizadas tornam-se irrealizáveis. Produzir absolutamente tudo utilizando de processos flexíveis simplesmente implicaria em quantidades absurdamente altas de horas de trabalho, de modo que não iria restar tempo algum no dia-a-dia para fazer nada além de produzir coisas, pois tudo precisaria ser produzido do zero. Para reduzir a quantidade de tempo de trabalho necessária para produzir cada bem de consumo, seria preciso usar recursos de processos fixos. Todavia, construir a grande variedade de máquinas e instrumentos indispensáveis para produção em massa de todos os bens que possam ter uso em uma única “comuna” geograficamente delimitada tomaria muito tempo, além de ser absurdamente destrutivo em termos ecológicos. A sociedade comunista iria, portanto, demandar ambas as formas fixas e flexíveis de produção, dado que apenas as duas trabalhando em conjunto podem assegurar que todos estejam livres de despender seu tempo de trabalho por inteiro apenas para sobreviver ou ter acesso aos confortos materiais mais básicos.

Limites planetários e planejados

Ao que parece, a produção em larga escala de bens manufaturados, numa sociedade comunista, assenta-se na necessidade de uma forma prescritiva de planificação capaz de substituir a base informacional de demanda pública por bens que, sob o jugo do capitalismo, é mantida refém de um sistema de preços. [28] Os economistas descrevem esses preços como se fossem meros sistemas de feedback que alocam recursos baseando-se na demanda. Seguindo os rumos mais extremos dessa ideação, o liberal delirante chega a pensar que os preços são essencialmente uma espécie de lei da natureza, transmutando informação termodinâmica para uma forma que seja melhor compreendida pelo cérebro humano. Na realidade, porém, os preços são mecanismos de dominação social. É evidente que a existência dessa forma social promove a indução da escassez artificial — posto que, apesar de se produzir comida além do necessário para toda a população mundial, a desnutrição generalizada e a miséria persistem, precisamente, nas regiões mais pobres porque não é possível custear alimentação nesses lugares. É a imposição dessa escassez “precificada” que obriga boa parte da população a vender sua força de trabalho para sobreviver. Deste modo, a ideia de que o “preço” deve ser substituído pelo “plano” é fundamentalmente invertida. O “planejamento” já é uma parte da precificação, usado no cálculo da produção de grandes corporações, na implementação de vastos sistemas logísticos para cortar custos e disciplina laboral, nas práticas convencionais de contabilidade corporativa, etc. De fato, não são os “preços”, mas as demandas e a sua circulação posterior que comumente fornecem a informação necessária para alocar recursos entre e dentro dos conglomerados capitalistas. A planificação pode ocorrer em todos os modos de produção. Não se trata de instituir ou não um sistema de planejamento central, mas sobre como a planificação é conduzida e para quais finalidades. Sob o capitalismo, a planificação é efetuada mediante níveis de hierarquia e de comando que fundamentalmente servem a uma distinta “lógica social” capitalista expressada pela “lei do valor”. Sumariamente, podemos simplesmente afirmar que os planos estão sincronizados com os preços e orientados, essencialmente, pela lucratividade, quer seja avaliado a curto prazo ou ao longo do processo de maturação e sobrevivência da empresa.

Sendo assim, o comunismo não é a simples substituição do preço pelo planejamento, tampouco é reduzir o sistema de preços a uma espécie de “valor de trabalho” ou “valor de uso” inalterados na mercadoria subjacente. Comunismo é a aniquilação do valor e, por tabela, do preço. É sob essas condições que as revoluções têm em si o potencial de construir o comunismo uma vez consolidadas as “medidas comunistas” que são, respectivamente: a) a desmercantilização imediata via abolição do dinheiro, preços (incluindo escambo, que é um tipo de sistema de preços morto-vivo), como também o complexo de mercados em sua totalidade e a propriedade privada; e, b) começar a experimentar sistemas deliberativos de planejamento, alocação, e reconfiguração técnica como um meio para desmantelar a dominação social. Esses experimentos iniciais vão ser iterativos e improvisados, assumindo várias formas e mudando constantemente. Entretanto, eles terão que tomar a desmercantilização como ponto de partida, lidando com a escassez inicial e até mesmo os perigos da repressão militar sem que sejam restituídos os sistemas de dinheiro, propriedade ou outras formas de dominação social — mesmo se essas coisas fossem, inicialmente, impulsionar a “eficiência” de alguma maneira. [29] Nesse sentido, a guerra civil defensiva decorrente de qualquer levante revolucionário só pode ser vitoriosa por meio de uma conflagração social mais ampla lançada contra os alicerces do mundo capitalista, os quais estão cristalizados em categorias como a forma-preço e a propriedade.

As primeiras fases do processo de inauguração da sociedade comunista deverão usar, precisamente, mecanismos de contabilidade condicional para gerenciar a turbulência da reconfiguração: métodos para quantificar horas de trabalho, escassez material, produção-consumo e o uso destas mensurações para determinar a distribuição conforme um determinado sistema de prioridade. O comunismo não é fundado por essas formas de cômputo, mas gestado apesar delas. São dores de crescimento temporárias cuja trajetória deve sempre propender-se à sua própria suplantação pelo planejamento comunista propriamente dito. O balanceamento exato entre a necessidade e o experimental — entre a guerra civil e a conflagração social — acabará por constituir a questão estratégica central das primeiras eras de construção comunista, determinando se o projeto revolucionário conseguirá dar o salto adiante e superar seus primeiros obstáculos. Contudo, essas limitações não deveriam ser avaliadas apenas como entraves à transformação social. Todo limite é generativo.[30] Apesar da possibilidade das limitações práticas do conflito civil forçarem os partisãos a, por exemplo, manter monoculturas agrícolas indesejáveis — tendo em mente que a regeneração do solo e a construção de novos manejos agroecológicos é uma missão extensa em áreas profundamente ligadas às práticas agrícolas do agronegócio contemporâneo — em outros domínios, são justamente estas limitações que aceleram a invenção social, vital para o caráter revolucionário do processo.

Em suma, a construção comunista é definida pelo seu caráter de transição de uma sociedade para outra, e essa transição só pode ser bem sucedida caso os resquícios da sociedade capitalista, incluindo medidas temporárias que podem carregar alguma semelhança superficial com salários ou preços (i.e., vouchers de trabalho ou pesos de distribuição de prioridade norteados pelo grau de escassez das necessidades) sejam permanentemente extinguidos. No geral, os medos comuns ao termo “comunismo” se relacionam quase exclusivamente ao período de luta revolucionária ativa, com seus riscos de escassez e a necessidade de meios de defesa robustos, além da expansão contínua da revolução para fora de suas barricadas iniciais. O problema não é, portanto, explicar a simples utopia de como uma sociedade comunista deveria funcionar em seu nível mais elevado, e sim como poderia ser capaz de emergir dessas fases adversas, inferiores. É aqui em que todos os debates complexos sobre estratégia, autoridade e meios versus fins estão arraigados. Apesar disso, mesmo após a possível vitória na guerra civil, a conflagração social continua, marcando o período de transição da construção comunista desde o princípio até a subsequente “fase baixa” do comunismo, durante a qual as associações gestadas no período revolucionário começam a desabrochar. Face a isto, ao invés de pensarmos a “fase alta” do comunismo como a “conclusão” da sociedade comunista, deveríamos entendê-la como se fosse o seu nascimento, iniciando um período inédito de evolução para a espécie humana. A construção comunista — a gestação e emergência do comunismo de um corpo não-comunista — estará continuamente dando lugar ao comunismo, simples assim. Eventualmente, os “vouchers” ligados ao trabalho ou qualquer outra coisa que se assemelhe ao dinheiro ou “valor”, não vão ser mais necessários. Será permitido a cada um pegar para si o que for preciso, independentemente do quão produtivo é ou qual função exerça na produção.

As visões utópicas sofrem, frequentemente, da tendência de confundir certas características dos períodos de gestação “inferiores”, nos quais a sociedade comunista é construída, com as práticas que prevaleceriam na fase “superior”, sem entender que o comunismo é uma realidade viva. Isso costuma ajudar a tornar o espírito fundamental da sociedade comunista visível e acessível para o público geral. E, por essa razão, às vezes é comum que certas visões utópicas empreguem fraseologias ligeiramente diferentes. Benanav, por exemplo, se refere ao seu esboço como sendo de uma sociedade “socialista”, evocando indiretamente a ideia de que o socialismo é uma sociedade de fase baixa que precede uma outra totalmente comunista — um pensamento contrário a qualquer ortodoxia comunista enraizada nos trabalhos de Marx, mas que, no entanto, tornou-se comum graças ao já falecido dogma “marxista” engendrado em torno da experiência russa, permanecendo fossilizado em uma ideologia popular nos dias de hoje. Mesmo Benanav não é completamente claro neste tópico, apenas sugerindo que a sociedade socialista é aquela em que um “domínio de liberdade” seria progressivamente ampliado, dando maior abertura para a “experimentação radical que seria explorada por todos, sem ameaçar a seguridade material ou liberdade individual de ninguém”. Mau, em contrapartida, aparenta elucidar completamente a questão, equalizando totalmente a sociedade comunista em si com o que pode ser compreendido como uma ordem social mais rudimentar (efetivamente, uma “economia socialista de mercado”), onde um setor “público” dedicado às atividades necessárias para reprodução continuaria separado do setor “privado” em que “os produtos que a comuna escolheu não incluir no seu plano econômico” seriam manufaturados e trocados pelas pessoas em seu tempo livre — implicando que o dinheiro deve permanecer, visando coordenar essa atividade. [31]

Nesse sentido, e tão somente nele, devemos demonstrar que o problema dos utópicos incide no fato deles não serem utópicos o suficiente. Os conflitos entre as “necessidades” e “desejos”; “escassez” e “abundância”; “liberdade” e “necessidade”; “público” e “privado” tendem a assombrar certas narrativas — formando critérios contra os quais várias formas de “planificação” estão concatenados — embora o caminho óbvio seja que tais categorias são socialmente construídas e, consequentemente, propensas a erodir e sofrer mutações ao decorrer da construção do comunismo. Ao invés de projetar essas categorias convencionais no futuro de maneira que possam servir de base positiva para a planificação comunista, poderíamos propor uma visão mínima que dê enfoque aos aspectos negativos da produção administrativa: em vez de indústrias separadas, com delimitações claras entre si, cumprindo metas de produção para bens específicos (ou simplesmente divididas entre escasso-abundante ou essencial-supérfluo), podemos conceber uma infraestrutura industrial-ecológica gerenciada de acordo com limites de produção. Assim como a associação de produtores que os gerenciam, esses limites seriam funcionais e deliberativos por natureza. Sucintamente, em vez de se alongar sobre o que exatamente produzir, as associações seriam incumbidas de decidir o que não deve ser produzido.

A “demanda” por bens pode ser gerenciada de inúmeras maneiras diferentes. Provavelmente, a opção mais familiar para nós seria algo como um livro-cheque digital em que, através dele, solicitações são feitas, registradas e atendidas, conectando os que precisam de um determinado bem com aqueles capazes de produzi-lo e transportá-lo — esse sendo o equivalente comunista de uma plataforma comercial de exportação como a Amazon ou TaoBao. Diferentes variações deste tema frequentemente integram, de forma expressiva, o tipo de soluções algorítmicas advogadas pelos “cyber-socialistas” aos quais Bananev replica: “eles pretendem criar um software capaz de processar informações sobre preferências de consumidores e capacidades produtivas industriais — como um filtro gigante alimentando um processador de dados — e gerar a alocação ideal de recursos”. Porém é provável também que a produção e alocação reais sejam coordenadas por intermédio de novas formas desconhecidas ou até aparentemente arcaicas, surgindo da abundância de bens, que Mau chamaria de setor “privado” sem “trocas”, obtidos por meio de novos circuitos ou por canais difíceis de compreender (para nós) vinculados a culturas locais novas e emergentes. Portanto, o problema não é primordialmente a questão algorítmica de demanda e distribuição tratada pelo clássico debate do cálculo no socialismo. Há inúmeras soluções técnicas para o problema da assimetria da informação e da alocação em tempo hábil. O dilema fundamental é, simultaneamente, de caráter social e ecológico: como balancear o metabolismo humano com a biosfera — e outros sistemas planetários — de modo a não restringir o tempo livre ao ponto de uma nova forma alienígena subsumir a subsistência humana? O meio deliberativo de estabelecer limites [sobre a produção] aparentemente é o caminho mais plausível de reconciliar esses imperativos conflitantes.

Diferentemente das cotas de produção que precisam necessariamente atingir uma meta determinada de bens produzidos, os limites poderiam ser implementados ao passo em que os materiais básicos fabricados excederem o montante dos próprios produtos já finalizados. Ao fim e ao cabo, um dos princípios base da sociedade comunista é o rompimento da satisfação das necessidades humanas básicas com a noção de continuum com o “desenvolvimento”. Nos primeiros anos da década de 50, Bordiga deduziu que a visão moderna sobre a demanda no final do Manifesto Comunista iria precisamente englobar um “plano de subprodução” que enfatize o “desinvestimento do capital”, resultando em uma redução geral do volume de produção e na priorização de bens para consumo humano imediato sobre aqueles com o propósito de expandir a capacidade produtiva. O mecanismo deliberativo de planificação ecológico-industrial é, por definição, não uma máquina prometeana que reduz a escassez a partir do desenvolvimento unilateral das forças produtivas em escalas ainda maiores, mas, no sentido contrário, um aparato para gerir cientificamente a abundância, ao mesmo tempo em que calibra a capacidade produtiva para que esta não descambe em desperdício irrestrito de massa e energia pela comunidade-material. Em outras palavras, o “plano” nada tem a ver com correr contra o tempo para cumprir cotas com recursos limitados em mãos, mas praticar uma atividade de cuidado e manutenção com algo análogo a uma permacultura produtiva que é, tecnicamente, sempre capaz de gerar mais que o necessário.

Existem duas razões técnicas para a administração produtiva baseada em limites ser preferível às cotas de produção. Primeiramente, na maioria dos casos, é muito mais simples ter noção dos impactos sociais e ecológicos da geração de energia, produção de alimentos ou extração de recursos em comparação aos da montagem final. Estas etapas iniciais da produção absorvem o grosso da massa e energia que passam pelo sistema industrial, servindo como a interface mais direta para o fluxo não-humano de materiais através dos grandes sistemas geosféricos, possuindo também maiores impactos sociais em aspectos como distribuição populacional e práticas culturais. Em segundo lugar, se a administração social e metabólica já for levada em conta na fase inicial de produção, os participantes das etapas posteriores terão liberdade para produzir o que quiserem com esses materiais (considerando que esses limites já foram impostos anteriormente no processo), no nível de livre associação que escolherem, sem precisar gastar muito tempo calculando toda a pegada ecológica do artefato que pretendem fabricar. Eles iriam apenas ser responsáveis por avaliar impactos excepcionais ou não notificados de seu produto específico: desperdício excedente gerado pelo processo de manufatura, o reaproveitamento dos materiais, potenciais impactos na saúde pública, etc.

Os limites poderiam ser estabelecidos para um material específico, considerando que ele seria completamente consumido em um determinado período de tempo, relacionando-o a todas as consequências ecológicas subsequentes. A título de ilustração, ainda que com as presunções otimistas sobre os adventos da eletrificação, captura-de-carbono ou o surgimento de técnicas inovadoras de produção “verde” dos materiais industriais mais amplamente utilizados, como concreto e aço, uma quantidade considerável de emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) serão inevitáveis e deverão ser minoradas através da capacidade prevista de sumidouros de carbono e captura direta de ar para garantir que as emissões totais permaneçam negativas — pressupondo que esse processo de redução dos GEE emitidos durante a era capitalista ainda está em andamento. Portanto, se a associação climática global concluir que as taxas de emissão de Gases de Efeito Estufa devem ficar abaixo de determinado percentual anual, restrições poderão ser impostas à quantidade de combustíveis fósseis que podem ser alocados para as fases iniciais do circuito de produção — em contraste com as etapas finais, cuja as emissões são difíceis ou impossíveis de medir — , ao volume de biomassa que os produtores rurais podem queimar ou deixar apodrecer, à extensão dos arrozais (grandes produtores de metano) e ao tamanho dos rebanhos que podem ser criados em um intervalo de tempo propriamente delimitado. Estes limites se propagariam pela estrutura aninhada das associações para fornecer diretrizes às ramificações locais.

Podemos até supor que esses limites seriam impostos partindo do princípio de que tais diretrizes não são seguidas universalmente. Em outros termos, para cada “limite”, haveria também algo similar a uma previsão de cumprimento baseado nas tendências históricas ou características técnicas de certos setores, onde modificar padrões existentes de outputs é mais trabalhoso. Obviamente, seria importante para as associações investigarem as causas do desacordo com as normas de produção — o que pode ser perfeitamente razoável — e, para solucionar esses conflitos, existiriam formas de arbitragem social dirigidas por associações especializadas em solução de conflitos, explorando maneiras de resolver os casos mais difíceis e persistentes de inadequação local.[32] Mas a ideia central aqui é que os limites seriam, em última análise, restrições amplas e mínimas operando em um contexto de abundância geral, e não sistemas de racionamento contornando, entre a vida e a morte, alguma escassez excepcional de recursos essenciais. A verdadeira escassez, para qualquer coisa que não seja artigos de moda inestimáveis, é algo que pertenceria às fases iniciais da construção comunista e que teria de ser resolvida por meio de uma combinação equitativa de sorteamento, distribuição ponderada pela escassez e sistemas baseados em vouchers para determinar as condições de trabalho.

Dentro da sociedade comunista propriamente, as associações devem, no máximo, escolher classificar certos bens por graus de prioridade, determinando a sequência em que um bem é alocado ou qual pedido específico é transferido para o próximo ciclo de produção, caso um dos limites deliberativos seja atingido. Embora as listas de prioridades possam ter alguma sobreposição com a nossa ideia de “essencial” versus “não essencial”, elas normalmente sinalizariam coisas como demanda sazonal (priorizar suéteres no outono para climas temperados) ou necessidades puramente temporárias (priorizar materiais de construção para áreas em recuperação de terremotos). A maioria delas não seria sequer uma questão de produção em massa, mas sim assuntos locais definidos por deliberação dentro de associações rotineiras dedicadas a atender necessidades relativas — coisas que hoje poderiam ser descritas de forma muito abrangente como “reprodutivas”, variando desde cozinhar alimentos até podar árvores, varrer ruas, trabalho de cuidado com filhos ou construir uma infraestrutura pública.

Estes limites negativos poderiam operar em conjunto com algum algoritmo qualquer para alocar bens. Se assumirmos que as formas exatas como a informação é inserida e transmitida variam bastante, então podemos compreender este aspecto positivo do plano como um sistema heterogêneo em cascata. O planejamento pode ser fracionado em ciclos, fundamentando-se em certas premissas sobre o tempo de produção e a vida útil do artefato. Uma previsão contínua (rolling forecast) poderia ser continuamente gerada por associações e/ou pelos próprios usuários finais, organizada de inúmeras maneiras — estando o método técnico preciso de acordo com a natureza dos materiais em questão, as capacidades funcionais das associações envolvidas e as práticas culturais predominantes entre aqueles que fazem a solicitação — síntese do que cascatearia de volta pela cadeia de produção, por quaisquer meios algorítmicos que as associações relevantes escolham utilizar, até chegar aos produtores de matérias-primas. A quantidade de matéria-prima produzida seria então aquela especificada na previsão ou no limite estabelecido para o uso do recurso de determinada fonte, ou em uma área particular em menor escala (ou, claro, globalmente). A ideia básica, no entanto, é que o próprio processo de deliberação torne possível cascatear a produção, mesmo na ausência de algum “protocolo” universal ou sistema de informação único e homogêneo, tal como o “preço”. O caráter deliberativo das associações permitiria ajustar as solicitações de artefatos específicos à natureza heterogênea dos mesmos. Aqui, um exemplo concreto (embora inteiramente especulativo) ajudará a ilustrar a ideia basilar.

O Motor da História

Há algo de especial sobre os movimentos circulares. Milênios antes de sermos capazes de descrevê-los com cálculos, de traçá-los de forma sinusoidal, ou de ter descoberto a utilidade do valor de π, as pessoas já estavam movendo coisas com um raio em torno de um eixo. Quer seja o rolar de uma roda de carroça, o girar da argila para fazer cerâmica, o esmagamento giratório de grãos com um moinho de água, ou até mesmo a circularidade dos cálculos cosmológicos, a habilidade de mover coisas em um círculo é fundamental para a tecnologia humana. O capitalismo não transformou os aspectos críticos do movimento circular, e o comunismo pouco provavelmente vai substituí-lo. Assim é possível especular sobre como os communards do futuro podem vir a produzir uma das histórias mais bem sucedidas do movimento circular: o motor elétrico. [33]

Existem muitos tipos diferentes de motores elétricos, todos apropriados para diferentes casos de uso e com várias vantagens e desvantagens técnicas. Para os nossos propósitos vamos considerar um pequeno motor DC escovado como aqueles encontrados em mercadorias como escovas-de-dentes elétricas, barbeadores elétricos e celulares. Tais motores tem muitas peças essenciais:

Não é crucial para o leitor, nesse caso, entender cada detalhe do funcionamento dos motores elétricos, basta assimilar que até os mais simples são montados a partir de uma variedade de componentes, cada um sendo em si mesmo o resultado de um processo industrial complexo. [34] Um pequeno motor DC escovado é mais ou menos como uma torta de maçã: para fazer um do zero é preciso antes criar o universo. Para simplificar as coisas, nossa especulação vai ser limitada à fabricação e montagem daquilo que compreende o motor físico em si, sem incluir seus componentes — os quais nós presumimos serem captados a partir de associações a montante de formas muito parecidas com os métodos usados para distribuir tais motores para seus próprios usos a jusantes.

Esquema de motor DC

Figura 1: Esquema um tanto simplificado de um pequeno motor DC escovado
Fonte: Design dos autores

Podemos assumir que os communards vão produzir esse motor em volumes grandes o suficiente para suprir demandas regionais. A maioria dos motores poderá ser enviada para depósitos eletrônicos de uma região onde qualquer um que precisasse poderia vir e coletá-los em menores quantidades. Algum tipo de modelo de distribuição por depósitos regionais provavelmente faria mais sentido devido à porção considerável de produtos finais contendo esses motores que seriam criados em menor escala nas oficinas flexíveis locais. Por outro lado, associações produzindo bens que dependem desses motores em volumes médios ou altos podem fazer pedidos diretos para a associação responsável pela montagem dos motores finais, pulando o depósito e trabalhando os detalhes de envio no tête-à-tête. Em ambos os casos, o número de motores feitos em um determinado período de tempo seria definido pela demanda prevista, modelada pelas associações que gerenciam os depósitos somado à demanda de outras que fazem pedidos em massa. Quantidades tampões também teriam de ser mantidas à disposição nos depósitos em casos de aumentos repentinos no desejo por motores, mas, deveria a requisição destes objetos subir subitamente para níveis tão altos assim? — talvez uma nova moda pegou entre os jovens que gostam de vestir hélices motorizadas instaladas em chapéus chamativos, algo que todas as pessoas mais velhas pensam parecer completamente idiota — a partir daí, os communards podem simplesmente ter de esperar o novo ciclo de produção, já que um gargalo na produção de ímãs ou de fios de cobres é atingida devido a limites ambientais, ou, como os mais velhos vão ser capazes de apontar, devido a “esses guris malditos e seus chapéus fuleiros do caralho”. [35]

Indivíduos ou associações que frequentem determinadas oficinas ou grupos de oficinas concentrados em algum lugar poderiam enviar seu pessoal para coletar os motores que precisam para determinado ciclo produtivo como quisessem. Em alguns lugares, administradores de depósitos podem escolher oferecer distribuição last-mile por meios que eles mesmos sugerissem. Em outros lugares, podem haver associações dedicadas à entrega que poderiam fazer a mediação entre a oficina e o depósito. Para a maioria das necessidades, essas respostas logísticas seriam maleáveis e frequentemente informais — talvez um grupo local de equestres encontrou algo como um “pony express”, ou talvez algum artista/entusiasta local (“um homem louco”, de acordo com os vizinhos) se tornou particularmente (“obsessivamente”, “de forma doentia”, “um tanto desnecessário”) focado em construir um estranho sistema de tubos pneumáticos que abrange uma grande porção da cidade. Talvez alguns indivíduos operando um dos depósitos simplesmente aprecie a atividade de entregar motores. Talvez esse indivíduo é dotado de um caráter especialmente bizarro. Talvez ele entregue motores para aqueles que precisem deles, mas também para aqueles que não querem e nem sequer precisam dos motores. Talvez ele seja conhecido por criar esquemas de distribuição elaborados que cumprem um propósito pouco aparente — vestindo um terno vermelho cintilante e jogando motores pelas chaminés, deixando pilhas de motores em terrenos abandonados nas margens da cidade à noite, colocando motores em uma sacola e colocando essa sacola nas costas de um javali sedado que então é solto na selva para que todos que queiram os motores tenham de caçá-lo — essas são coisas que esse indivíduo considera divertidas, ou talvez significativas em algum sentido artístico ou religioso. Talvez essa pessoa aprecie o zumbido suave e insectóide das pequenas máquinas. Talvez ela construa esculturas de outro mundo com eles, deixadas no deserto onde permanecem como monumentos despercebidos e sussurrantes. Talvez esse indivíduo fabrique pequenos brinquedos grotescos com os motores e os esconda em lugares inapropriados para pessoas encontrarem, para grande desprazer das mesmas. Uma mistura de arte, brincadeira, loucura e propósito.

Tanto os grandes produtores de motores que abastecem os depósitos quanto as pequenas oficinas que captam os motores dos galpões provavelmente vão usar designs capazes de ser acessados através de algum tipo de rede digital distribuída (i.e., algum tipo de internet comunista) onde a informação relevante é centralizada. Essa informação seria livremente utilizada, modificada e avaliada por todos. Visualize um cruzamento entre Yelp e GitHub para documentos de engenharia: arquivos de design, programas de execução de máquinas, especificações, códigos de firmware, instruções (sobre montagem, validação, operação, manutenção, etc) e outros documentos relevantes estarão livres para serem distribuídos e modificados pela coletividade. A natureza completamente pública desta plataforma permite significativos acessos, rastreabilidade, modularidade e discussões para documentos que hoje seriam considerados propriedade intelectual privada. Enquanto isso, listas de depósitos, produtores e usuários regulares estariam prontamente disponíveis em qualquer lugar. Apesar de ser composta de conteúdos fornecidos por produtores, distribuidores, cientistas, entusiastas e arquivistas, tal plataforma seria uma associação em si mesma, gerida por curadores especializados, editores, designers e especialistas de software.

Para os produtores que quiserem explorar esses arquivos, o design e o método de fabricação escolhido seria por fim dependente dos detalhes do caso de uso e os métodos técnicos acessíveis aos fabricantes. Em um sentido abstrato, o espaço de parâmetros técnicos no qual o designer de motores precisa se amparar para que haja tomada de decisão de projetos não teria diferenças na sociedade capitalista e a comunista. Enrolar uma maior quantidade de fio em volta da armação aumenta o torque em proporção à força do campo, mas também gera mais calor, e obviamente requer mais fio. Materiais e geometrias diferentes seriam mais vantajosos para a dissipação do calor, mas podem ser mais difíceis de fabricar, além de demandar maior espaço físico. Algumas geometrias são mais fáceis de se atingir com um método de fabricação, outras o são com um método diferente. Esse tipo de conhecimento seria cultivado no nível prático com as associações de produtores, distribuídas em nível abstrato pela sociedade através de instituições educacionais, reunidas de forma amplamente acessível através desses repositórios de informação centrais.

O acesso à maquinaria exigida para diferentes formas de fabricação é tanto uma questão técnica quanto geográfica. A disponibilidade de certos materiais, sem mencionar suas características (diâmetros de fio, resistência à corrosão de diferentes ligas de alumínio, geometrias e propriedades de campo de ímãs permanentes) possuem um papel decisivo na limitação das possibilidades práticas de design que podem ser escolhidas. Esses espaços de parâmetros são muito mais determinados por aspectos de nosso universo mais profundo e rudimentar do que os arranjos produtivos particulares de qualquer sociedade humana. Mas esses espaços de parâmetros existem apenas na sociedade humana e, portanto, se tornam um tipo de prisma através do qual formas sociais solidificam-se em um caminho de design escolhido. No capitalismo, esses parâmetros são então condicionados às preocupações financeiras. Não é apenas o produtor que quer fabricar bens da maneira menos custosa possível e, ao mesmo tempo, atender à especificação, mas todo o contexto industrial (i.e. social) — na forma de supply chains, com todas as suas nuances — estreita o espaço de tomada de decisões a partir de uma matriz de dimensões infinitas para algumas opções por parâmetro. Sob o comunismo, esse espaço de parâmetros infinito também é diminuído em um conjunto limitado de opções. Contudo, nesse caso, esses parâmetros não são envisionados através da matriz de custo, mas através da deliberação em sintonia com os desejos sociais — e esses desejos vão sofrer uma variação significativa de acordo com o contexto. As opções exatas que dela emergem poderiam ser muito diferentes daquelas que atualmente existem, mantendo ainda a produção consistente de motores que são perfeitamente adequados às necessidades dos consumidores.

O corpo da armação — um tipo de cilindro com braços em raios correndo ao longo de seu comprimento, em volta do qual a bobina é enrolada — pode ser fabricado de muitas formas diferentes a partir de uma variedade de opções de material. Vamos assumir que a instalação responsável por produzir esse motor não se restringe a fabricar artigos de hardwares de um único tipo, mas outros hardwares eletromecânicos. Dessa forma, a associação terá impressoras 3D de leitos de pé capazes de fabricar partes com quase todo tipo de geometria que sirva no envelope de montagem, incluindo as armações. [36] Apesar da quantidade de unidades confeccionadas por hora ser menor com a utilização de um molde de injeção, o nível de desperdício é muito menor, pois o pó inutilizado poderá ser colocado de volta à máquina. Outra vantagem é que nenhuma alteração ferramental é necessária para a impressora caso haja alguma mudança no design de partes mudar. Na verdade, devido ao grande volume de impressões, muitos componentes diferentes de diferentes modelos podem ser impressos ao mesmo tempo, baseando-se na demanda flutuante com pouco tempo de preparação. E, dentro desse circuito, podemos fazer a seguinte presunção: num contexto onde a demanda em toda a região por qualquer tipo de design de motor fosse maior do que a maioria dos bens industriais, poucos designs exigiram mais do que algumas centenas para serem produzidos por semana — as exceções disso seriam os aumentos súbitos devido a produção de modas particularmente grandes de alguma máquina jusante, exigindo mais coordenação direta entre as associações relevantes.

Quando esse tipo de produção viciante foi herdado da era capitalista, os fabricantes estavam limitados a um tipo perfeitamente utilizável, talvez difícil de se reciclar, de pó de nylon. As resinas de nylon usadas para produzir pó de nylon são produzidas hoje a partir de certos produtos secundários do refinamento de combustível fóssil. Podemos talvez presumir que algumas das matérias-primas necessárias para a produção de nylon foram transferidas com sucesso para fontes renováveis. [37] Talvez uma associação de pesquisa e desenvolvimento especializada em materiais micológicos (podemos chamá-los de “máfia do cogumelo”) tenha desenvolvido recentemente um novo tipo de plástico biodegradável, de alta-performance, formado a partir de colônias de fungos geneticamente modificados que podem ser transformados em pó e utilizados nesta impressora. Essa associação (conhecida por seus membros especialmente zelosos, que possuem sobre eles um ar um tanto quanto ameaçador) tem promovido agressivamente esse novo material, que promete apaziguar a escolha atual entre usar terra arável para biomassa ou para manter a indústria de combustível fóssil funcionando. Membros das associações de produção frequentemente chegam em seus espaços de trabalho — não mais localizados em “fábricas” ou “oficinas” mas em espaços combinados que possuem nomes completamente estranhos para nós, ou jocosamente emprestados da longa história da imaginação utópica: “ateliês”, “falanstérios”, “arcologias” — e encontram membros da máfia dos cogumelos zanzando pelas sombras, vestindo seus sobretudos característicos e carregando suas maletas, também sua marca-registrada, cheias de amostras micológicas e cópias de trabalhos filosóficos escritos pelo seu santo padroeiro, um estranho filósofo pré-revolucionário da longínqua ponta ocidental da Eurásia. Por vezes, os membros dos times de produção são até abordados em becos escuros pelos mafiosos, que os questionam sobre o motivo de sua organização ainda não ter abraçado a “Revolução Rizomática”, convidando-os então para uma reunião do “Grupo de Estudos Deleuziano”. [38]

Muitos produtores de motor, devido a alguma mistura de interesse e intimidação, concordaram em implementar os pós micológicos. Para os motores mais fracos, esses plásticos (tanto nylon quanto fungo) funcionam perfeitamente. Aos mais fortes ou rápidos que exigem mais dissipação de calor, a associação também tem impressoras semelhantes à disposição que os sintetizam juntos de pós metálicos para formar corpos sólidos, apesar de que o processo é mais bagunçado e complicado, tendo em vista que o metal é um condutor térmico melhor que o plástico, os rotores dos motores maiores podem ser projetados com um ventilador acoplado para prover o resfriamento por ar ativo. A embalagem externa do motor pode ser produzida a partir dos mesmos métodos que o corpo da armação, apesar de que é mais provável que o design peça por uma embalagem externa feita de metal. Isso pode ser feito com as impressoras 3D que fazem a sinterização do metal, ainda que, por vezes, tal associação responsável por esse processo venha fazer dupla com uma outra de forja de metal [39] para produção de maiores volumes. A escova e o comutador precisam ser feitos de um material condutor capaz de resistir à fricção repetida sem se desfazer, e com isso é quase garantido que eles serão feitos de metal e produzidos como tal.

O fio de cobre, um artefato universal em si mesmo, extrudido em massa em apenas um pequeno número de instalações automáticas ao redor do globo, é enrolado em torno do corpo da armação com o uso de algumas máquinas robóticas preparadas especialmente para esse propósito. Tanto para a impressão 3D da armação em leito de pó quanto para o enrolar dos fios em volta dela, os operadores são liberados da maior parte do trabalho manual, mas ainda assim precisam realizar essas ações repetitivas em adição à supervisão das máquinas. Esses indivíduos tendem a ser as mesmas pessoas que fazem a configuração e manutenção dessas máquinas, e portanto as conhecem intimamente. Agora, com o planejamento produtivo não mais orientado pelo lucro, a divisão técnica do trabalho entre aqueles que, no capitalismo, são chamados de engenheiro, técnico e operador de máquinas se torna desnecessária. Esses indivíduos têm todos os incentivos (e a expertise técnica necessária) para reduzir a quantidade absoluta de trabalho manual tedioso que precisam performar ao simplificar o processo de montagem ou introduzindo medidas de automação. Se existe uma alta demanda estranha por motores, e o trabalho exigido para supervisionar o processo de enrolamento leva mais do que poucas horas na semana, mais pessoas podem vir para um segundo turno que entra como um tempo onde seria gasto com a realização de tarefas tediosas, mas importantes, como a limpeza de ruas ou desentupimento de bombas de esgoto com defeito. É bastante provável que algum operador ache tal trabalho uma necessidade tediosa de algum tipo. Mas a ação de supervisionar e cuidar das máquinas é, frequentemente, até que meditativa. Há também a possibilidade de que esses indivíduos, ao observarem contemplativamente as atividades de manutenção do maquinário, passem a enxergar uma certa beleza nisso, ou até mesmo uma admiração religiosa — a fusão da matemática com os materiais formando uma harmonia mecânica, labirintos arcanos marcados com uma luz viva —, supervisionando essas máquinas tal qual se estivessem cuidando de um jardim ou templo.

Ímãs permanentes podem ser feitos a partir de uma variedade de materiais de ferro e ferrimagnéticos diferentes, alguns significativamente mais raros ou mais difíceis de refinar vis-à-vis os demais. [40] Esses motores em particular não podem ser feitos sem ímãs, mas, na maioria dos casos, é possível priorizar o uso de materiais mais comuns. A ferrita, um material cerâmico contendo muitos metais, pode ser facilmente transformada em ímãs permanentes. [41] Esses ímãs não são tão fortes comparados aos ímãs de neodímio, mas são perfeitamente adequados para muitos componentes eletrônicos — a exemplo dos motores citados anteriormente — sem exigir materiais comparativamente raros. Porque até mesmo simples ímãs podem ser complicados de se produzir e, em razão disso, alguns poucos complexos industriais os produzem em grandes quantidades usando de métodos de produção fixa de acordo com geometrias, composições de materiais e propriedades de campo específicas. Esses setores especializados raramente vão produzir ímãs adaptados para propósitos científicos ou infraestruturais. A maior parcela dos ímãs, como os utilizados nesses motores, vêm de linhas de produção em massa.

Na fábrica de motores, os compartimentos de máquinas especiais estão carregados de ímãs para inserção rápida no estator. Os estatores (aqui eles funcionam como componentes da embalagem externa) são variáveis em tamanho, forma e número de lugares para ímãs, pois é apropriado e desejável que a configuração do carregador de ímã seja dinâmica, flexível. Os ímãs são adicionados ou subtraídos para que cada um possa ser encaixado em seu respectivo estator, e dessa forma eles são posicionados apropriadamente. Assim que a máquina é configurada, um operador (ou até um braço robótico usando de visão artificial) simplesmente pressiona cada estator em um vão onde é automaticamente alinhado enquanto os ímãs são empurrados contra os compartimentos. O estator foi projetado para segurar os ímãs com um simples encaixe por pressão na direção paralela ao eixo do estator, e a geometria dos compartimentos, por sua vez, previne que sejam deslocados radialmente. Agora que todas as submontagens estão feitas, a montagem final será enfim realizada. Sob a ordem capitalista, esse processo provavelmente seria realizado à mão por trabalhadores treinados no uso de ferramentas especiais, mas sem mais a exigência de um treinamento ou conhecimento especializado. A natureza do trabalho intensivo da montagem implica que as empresas capitalistas, ao planejarem a produção para se adequar a limitações de lucro, vão ser encorajadas a encontrar pessoas cujo trabalho foi barateado por diversos meios, sendo a hierarquia imperial de arbitragem que estrutura supply chains globais o mais destacado deles. No modo de produção comunista, é justamente esse trabalho de montagem que nos trás o maior obstáculo e, portanto, cabe aqui esperar tanto soluções técnicas quanto sociais.

Por um lado, é quase certeza que haverão associações dedicadas a tentar automatizar processos que um dia foram manuais. Isso pode ocorrer de muitas formas. Alguns vão ser projetados sobre um modelo desportivo, no qual diferentes associações de entusiastas da automação vão consultar com associações de manufatura e engajar em competições amigáveis para ver quem consegue minimizar tanto a quantidade quanto o desconforto do trabalho manual em determinada linha de produção. Talvez alguma associação remonte um pequeno conjunto de braços robóticos que eles usaram em uma competição anterior, esperando que as máquinas se mantenham versáteis o suficiente para a montagem desses componentes menores. Ao mesmo tempo, podemos imaginar um novo processo sendo testado por um outro grupo de automação em que subconjuntos-protótipos (de algum tipo mais adequado a esse novo processo) são todos jogados em uma simples caixa almofadada rotatória onde, depois de muitas horas, a chance aleatória de colisão dentro da caixa acabe fazendo os motores serem construídos sozinhos. [42] Mas o processo precisa de refino e pode não ficar pronto tão rápido.

Acima de tudo, essas competições seriam arbitradas pela própria associação de produção, que escolhe um vencedor baseado em suas próprias necessidades satisfeitas. A única recompensa dessa competição desportiva seria o prestígio e o senso de satisfação. Dado que provavelmente criaria um ambiente feroz, cheio de drama, egos feridos e flutuações no status social, também podemos imaginar que associações de resolução de conflitos possam estar envolvidas para garantir que a competição não saia do controle — com uma associação sabotando o trabalho de outra, por exemplo. [43] Mas os mais habilidosos dessas associações podem considerar tudo isso como uma trivialidade. Talvez eles realizem suas tarefas de modo eremita, conduzindo suas pesquisas em monastérios científicos envelopados na névoa, escondidos nas profundezas dos locais menos acessíveis do mundo, se dignando apenas a visitar associações de manufatura que apresentam os maiores dos desafios. Eles argumentam que seu dever é memorável — até mesmo sagrado — e que não deveria ser tratado como um simples jogo.

Por outro lado, a solução do problema de montagem do trabalho intensivo, no lugar de ser técnica, também pode ser social. Similar às tarefas rotineiras, tais como limpar, cozinhar, manutenção e avaliação, imaginaríamos que necessidades remanescentes em uma simples montagem podem assumir formas culturais completamente novas. Talvez cerimônias surjam em torno de determinados componentes centrais. Novamente: podemos pensar nesse sistema industrial enquanto algo como uma floresta alimentar, cuidada como o solo. E essas práticas agroecológicas sempre envolveram tanto o cultivo cotidiano quanto a supervisão sazonal em grande escala tornada possível através de cerimônias. Não há razão para assumir que a produção em massa não possa ser administrada, pelo menos parcialmente, através de meios parecidos. Isso é especialmente verdade quando lembramos que a divisão entre o “interesse individual” e o “bem público” que parece tão natural para nós é, no fim das contas, um capricho da lógica mercantil. Talvez então, alguns bens essenciais sejam sujeitos a novos rituais sociais. Para nossos motores, isso obviamente seria cíclico em sua natureza: algum tipo de peregrinação em honra da virada das temporadas e das oscilações. Possivelmente uma haje anual para alguma galeria de indústrias onde crianças, incursando em um jornada inaugural muito além de suas casas, podem, pela primeira vez, testemunhar como as rodas do mundo giram; onde os jovens podem viajar cheios de orgulho, transbordando vida e buscando aventura — os dias cheios de serviços divertidos, as noites cheias de paixão e jovialidade —, saindo de lá transformados; ou onde os velhos podem por fim retornar, fartos de nostalgia e famintos por algum vislumbre do lugar onde eles testemunharam, pela primeira vez, o mundo girando e os corpos espiralados através das temporadas viscerais.

Construção e Conclusão

A selva verdejante projetada na argamassa não é mais do que uma tela vazia na qual desejos igualmente vazios são projetados, esbranquiçada. A folhagem exuberante e a cacofonia da vida animal, de insectóide à ave, ressoa em um componente primordial do cérebro, algum tipo de adaptação neurológica vertebrada acumulada ao longo das escalas evolucionárias. A parte de nós que sente fome e medo encontra seu lar nesse caos verdejante. Mas o apelo subconsciente à parte sapiens de nossa mente é menos sobre a selva em si e mais sobre o fato de que é um lugar que não pertence aqui. É literalmente distante, mas também o é qualitativamente: em algum lugar imaculado, onde as chuvas mornas lavam os pecados e cicatrizes de nossas próprias — com certeza menos verdejantes e mais vazias — vidas. Algum lugar que cultiva, em vez de simplesmente lançar o capital sempre adiante em um circuito irracional. Pôr a mão sobre a imagem na parede é igualmente iluminador. As lições são aprendidas através do corpo, e a instrução dada pela argamassa à pele possui dois gumes: o paraíso da selva é sem substância, mas a parede em si é muito real.

Alcançar e tocar a utopia exige que você toque o mundo à sua frente primeiro. O futuro só pode ser o desdobramento do presente no qual você vive. O comunismo não é o devaneio apaixonado por um mundo melhor, mas algo que é antes cultivado a partir da raiva do que o mundo não é. Não o vislumbramos. Nós o sentimos nos momentos de febre — de cidades queimando, da ordem se desfazendo, de entes queridos tendo mortes lentas e banais, de mais um dia de trabalho em nossas vidas fervendo com esforço tão infinito quanto desnecessário —, de certo que não podemos vê-lo, mas senti-lo da mesma maneira que sentimos a pressão mudar antes de uma tempestade, sentindo na pele a dança daquele pedaço de carbonato de cálcio fundo em nosso ouvido interno. Em vez do olho, o otólito. Porque um mundo melhor não é construído de frente para trás a partir do futuro, mas a partir de onde estamos agora, no cume de uma montanha de ossos que constitui a pré-história da espécie humana. Esse mundo — que é “nosso” apenas no sentido de que nele vivemos e que, ao viver nele, o criamos — é estranho mas não incompreensível. Ele pode ao menos ser sentido; e tudo o que podemos sentir, de igual modo podemos enfrentar. A argamassa, sem brilho, foi construída a partir de materiais, máquinas e trabalho humano (trabalho vivo) que pode muito bem ser usado para quebrá-la. Talvez aquela janela de luz sem profundidade ofereça algum tipo de projeto, esboçando o quadro da demolição — como eles dizem, toda janela é uma porta para os corajosos e imprudentes. Deve haver, portanto, um fio lógico que conecte este mundo contra o qual lutamos ao fraco prospecto do comunismo, mesmo que difícil de ser articulado.

A ficção científica da sociedade comunista é inspiradora não quando é mais extravagante e fantástica, mas quando mundos fundamentalmente diferentes do nosso são mostrados como sendo executáveis a partir da montanha de ossos herdada por nós. Assim, a ênfase real dessa ficção é menos sobre o mundo que tentamos descrever, em toda sua ambiguidade, e mais sobre os momentos concretos que precedem o comunismo de fato. Leitores atentos já vão ter percebido que não fornecemos tanto uma representação do comunismo em si como uma série de questões sobre a sequência, aspecto, duração e as limitações do processo a que nos referimos como “construção comunista”. O verdadeiro problema não é simplesmente que o comunismo não pode ser uma questão local mas, a curto prazo pelo menos, haverão limites geográficos que irão dificultar o alcance do escopo global necessário para sua realização. A questão aqui é, portanto, menos sobre como o comunismo em si vai funcionar e mais sobre como podemos permanecer comunistas enquanto as condições necessárias para o comunismo ainda estão fora de alcance. Ao mesmo tempo, tentamos mostrar que não existem, essencialmente, limitações técnicas difíceis e rápidas demais impedindo o nosso mundo de operar de maneira comunista. As forças produtivas não precisam ser desenvolvidas até que tenhamos atingido a “automação completa” para uma ordem social comunista ser viável. A construção comunista podia muito bem começar hoje, se a subjetividade política coletiva existisse para iniciar tal projeto. Infelizmente, não existe, e construir essa força subjetiva — i.e., construindo o poder comunista — é um processo fundamentalmente longo e difícil. [44] Como Mau argumenta, no entanto, o pensamento em si mesmo é uma parte integrante desse processo. Talvez essa indagação possa contribuir, comedidamente ao projeto grandioso, de modo que, em algum dia, fragmentos do nosso mundo presente possam ser arrancados dos sistemas de máquinas do capital e transformados em algo novo através da longa luta e devoção apaixonada a tarefa utópica, dezenas de milhares de anos na criação e encerramento, por fim, da pré-história da espécie humana.


Notas:

[1] Fonte: The Science and Passion of Communism: Selected Writings of Amadeo Bordiga (1912-1965) [A ciência e a Paixão do Comunismo: Obras selecionadas de Amadeo Bordiga (1912-1965)], p. 453 da Edição Pietro Basso disponível no Haymarket

[2] Fonte: “Lifting the Ban” [Revogando a proibição] de Jacob Blumenfeld.

[3] A citação inicial é de The Fall into Time [Queda no tempo], edição da Quadrangle Press de 1970, a citação seguinte é de Blumenfeld 2021.

[4] Søren Mau, Compulsão muda: Uma Teoria Marxista Sobre o Poder Econômico do Capital, Nova York: Verso, 2023

[5] Ao que parece, Mau simplesmente se apegou bastante à acessibilidade ao tentar comunicar a perspectiva comunista a um público não familiarizado. Dado que ideais como “liberdade” e “democracia” ou díades como “indivíduo vs sociedade” e “privado vs público” são amplamente compreendidos, estas são formas fáceis de traduzir conceitos mais críticos em termos coloquiais. Mas a tradução sempre arrisca certa vulgarização, e simplesmente não está claro por que Mau — um filósofo — não daria algum sinal de que essas são categorias problemáticas e contestadas que foram, em grande parte, monopolizadas por pensadores liberais. Outra possível explicação é o fato de que o texto foi originalmente escrito para um jornal social democrata dinamarquês, no qual Mau mantinha uma coluna regular.

[6], Marx’s Inferno: The Political Theory of Capital [O inferno de Marx: A teoria política do Capital] de William Clare Roberts, p.241 da edição da Princeton University de 2016

[7] ibid, p.251

[8] Os contornos políticos desse argumento são feitos por Alain Badiou. Mas seu caráter histórico é tornado claro nas evidências arqueológicas modernas, que deslocaram a antiga noção de que as sociedades de caçadores e coletores eram formas de organização social predominantemente igualitárias e de pequena escala, que foram completamente substituídas por estados hierárquicos, produtores de grãos, após a revolução agrícola. O argumento arqueológico e antropológico elementar é apresentado em: “The Dawn of Everything: A New History of Humanity” [O alvorecer de todas as coisas: uma nova história da humanidade] de David Graeber e David Wengrow. Entretanto, a narrativa geral de Graeber e Wengrow rejeita a análise materialista básica em favor de um idealismo histórico confuso, utilizando por vezes uma retórica questionável no lugar de uma argumentação rigorosa, algo que foi apontado por Walter Scheidel em: “Resetting History’s Dial? A Critique of David Graeber and David Wengrow, The Dawn of Everything: A New History of Humanity” [resetando o registro da história? Uma crítica do “O alvorecer de todas as coisas: uma nova história da humanidade”] de Graeber e Wengrow, publicada na Cliodynamics em 2022.

[9] Compulsão Muda, p.321

[10] Compulsão Muda, p.129, itálicos no original.

[11]Amadeo Bordiga, “Lessons of Counter-revolutions” [Lições das contrarrevoluções]. The Science and Passion of Communism: Selected Writings of Amadeo Bordiga (1912-1965) [A ciência e a Paixão do Comunismo: Obras selecionadas de Amadeo Bordiga]

[12]Roberts 2016, p.193

[13]ibid, p.171

[14] E mesmo que o mundo retornasse a uma ordem do tipo, pelo visto, isso apenas resultaria em uma nova repetição histórica, com o capitalismo e outras formas de dominação social se reerguendo das cinzas para conquistar o mundo de novo. Afinal, essas formas pré-capitalistas de comunismo se provaram incapazes de mobilizar as forças materiais e políticas necessárias para derrotar de vez as formas pré-capitalistas de dominação social, para impedir o surgimento da sociedade capitalista ou frear seu avanço. Talvez isso não estivesse predeterminado, mas é um fato histórico evidente. É apenas nesse sentido político que poderíamos pensar nelas como “primitivas”.

[15] Global human-made mass exceeds all living biomass” [A massa antropomórfica global supera toda a biomassa viva] de Elhacham, Ben-Uri, Grozobski, Bar-one e Milo, publicado na Nature, ed.588, p. 442-444.

[16] Consequences of human modification of the global nitrogen cycle [Consequências da modificação humana do ciclo global de nitrogênio], publicada na Philosophical Transactions of the royal society B: Biological Sciences, 2013.

[17] A maior parte do tratamento de água é conduzida por meio de alguma combinação de filtração, exposição à UV e floculação (misturando após a adição de um coagulante químico que se liga aos sólidos, tornando-os mais fáceis de separar). Para construir uma planta desse tipo, você precisa de insumos rudimentares como cimento, cobre e aço, bem como componentes elétricos para as luzes UV e de membranas e maquinaria mais complexas para os sistemas de filtragem. Mas mesmo que você assumisse o controle de uma estação de tratamento de água já existente, ainda precisaria assegurar o fornecimento regular de insumos cruciais para os processos de floculação e filtragem, a saber cloro, carvão ativado e sulfato de alumínio. O cloro é produzido através de um processo de eletrólise que requer insumos de solução salina, bem como polímeros avançados utilizados como membranas. Carvão ativado é produzido tratando materiais ricos em carbono (qualquer coisa desde carvão, cascas de coco, madeira, turfa e outros) com calor extremo. Sulfato de alumínio pode ser sintetizado a partir de argilas e outras fontes geológicas (xisto luminoso ou criolita), mas é mais comumente produzido por uma reação de hidróxido de alumínio (obtido majoritariamente da bauxita) e ácido sulfúrico (o qual requer enxofre, que em maior parte é atualmente derivada do sulfeto de hidrogênio gerado durante a produção de combustíveis fósseis). Atualmente, o processo é extremamente intensivo em capitais e faz mais sentido conduzi-lo em larga escala, significando que a produção de sulfato de alumínio está fortemente concentrada em apenas algumas plantas. No final da década de 2010, havia meramente seis plantas de sulfato de alumínio em todo os Estados Unidos a oeste de Corpus Christi, Texas, e nenhuma em todo o Noroeste do Pacífico, de acordo com a EPA. Retornar a um sistema de purificação de água fervendo (hoje amplamente utilizado em muitas das cidades mais pobres do mundo) não é uma solução escalável, nem é compatível com sistemas integrados de tratamento de esgoto. O processo atualmente empregado no tratamento da água certamente não é o único possível, mas ilustra a escala geográfica e a dificuldade técnica envolvida em qualquer tentativa de purificar água para milhões de pessoas.

[18]Roberts 2016, p.238

[19] Outro erro da maioria das visões utópicas é o fato de tratarem o processo de transição revolucionária e a construção do comunismo como algo completamente incidental ao caráter da sociedade comunista, sendo esta o seu fim último. Em contrapartida, podemos apontar que a desordem é, precisamente, indissociável do processo de revolução e reconfiguração, e, mais do que isso, a fonte do material real (no sentido técnico e social) a partir do qual um mundo comunista poderá ser construído. Os leitores mais interessados nesse aspecto específico da questão vão encontrar materiais de leitura bastante úteis na tríade de artigos escritos por Jasper Bernes: “Revolutionary Motives” [Motivações Revolucionárias] que aborda o processo revolucionário propriamente dito, “The Belly of the Revolution” [O Ventre da Revolução] sobre a reconfiguração na dimensão da produção primária, e por fim “Logistics, Counterlogistics and The Communist Prospect” [Logística, Contralogística e o Prospecto Comunista] que dialoga bastante com os outros dois textos supracitados, mas dando um enfoque maior no sistema logístico contemporâneo. Junto a eles, deve-se incluir o artigo de Alberto Toscano sobre logística que, em partes, é uma réplica do autor ao próprio ensaio de Berners referente ao tema, o qual, por sua vez, tinha sido escrito como uma resposta ao texto inicial de Toscano. De forma similar, o artigo “Três Revoluções Agrícolas (e o Comunismo)”, de John Clegg e Rob Lucas, relaciona-se profundamente com os pontos debatidos no texto “Belly of The Revolution” [O Ventre da Revolução], de Bernes, e no artigo “Error” [Erro], publicado pela revista Endnotes. Nós não necessariamente endossamos quaisquer conclusões específicas de nenhuma das partes. Portanto, afirmamos que Bernes, em particular, superestima o grau em que a dominação social capitalista está incrustada nos sistemas técnicos (num sentido mais estrito, nós nos aproximamos mais das posições de Toscano), levando-o a criar pressuposições sobre o caráter e desenvolvimento da reconfiguração agroecológica e industrial que, em última instância, ou são completamente indefensáveis, ou simplesmente otimistas demais — por vezes, aparentando endossar as várias falhas localistas apresentadas pelas visões utópicas que criticamos aqui. Mas a fundamentação dos argumentos de Bernes é essencialmente anti-utópica, relevando-se como uma tentativa de lidar com os problemas bastante reais, tanto materiais quanto sociais, postos pelo processo de transição. Em vista disso, a leitura desses escritos é indispensável – a princípio, para compreender inteiramente a discussão a qual estamos nos engajando aqui e, por meio dela, cultivando a nossa própria formulação.

[20] Mesmo que as bacias hidrográficas sejam, de fato, inerentemente geográficas, as suas formas também são notoriamente difíceis de “localizar” tal como seria exigido dentro do escopo de operações das “comunas” de Mau. As bacias hidrográficas estão, obviamente, encaixadas como um quebra-cabeça umas nas outras, e, portanto, o uso local de seus recursos podem muito bem levantar questões de coordenação regional.

[21] Apesar de que não haveria nada como uma autoridade legisladora, uma força policial ou um exército fixo, obviamente existiria a necessidade de associações que se especializam no julgamento de conflitos funcionais entre associações (por exemplo, quando uma associação especializada em preservação histórica entra em conflito com outra que está tentando demolir prédios em ruínas para construir uma nova estrutura urbana) ou entre indivíduos e associações (por exemplo, alguém sendo proibido de entrar, ou mandado embora de alguma associação e tentando entrar com um recurso para apelar à decisão). A arbitração deliberativa social não seria uma questão incidental mas sim fundacional - o elemento básico sobre o qual a associação voluntária funcionaria. Podemos até pensar nisso como um tipo de “deliberação sobre deliberação” reflexiva, necessária para manter o campo no qual a deliberação pode ocorrer. Os métodos utilizados seriam extremamente diversos, de acordo com funções e lugares específicos. Mas isso também implica na necessidade de sistemas maiores de freios e contrapesos para, dentre uma multiplicidade de coisas, garantir que árbitros locais não se transformem em autoridades habituais que sistematicamente privilegiam algumas associações ou facções sociais em um determinado local em detrimento de outras. Assim, uma forma diversa, deliberativa de arbitragem social iria substituir muitas funções que conhecemos hoje como um “sistema jurídico”, exigindo um nível parecido de complexidade e um aninhamento de poderes de veto parecido.

[22] “Comunismo é tempo livre e nada mais!” é uma frase popularizada pelo polemista comunista, rabugento preferido de todos, Jehu. (https://therealmovement.wordpress.com)

[23] Atualmente, no entanto, até mesmo o tempo “livre” não deveria ser tão impetuosamente obscurecido pelo tempo gasto nesse trabalho “essencial”. Isso se mostra como verdade ao passo em que consideramos, tradicionalmente, que as atividades reprodutivas não-remuneradas seriam reconhecidas por sua necessidade social — portanto, o trabalho de cuidado praticado por pessoas mais velhas na creche local seria entendido como uma contribuição a esse trabalho necessário. De forma parecida, todo o conceito de deficiência seria transformado pela destruição da separação entre pessoas e garantias de subsistência. O uso do “necessário” aqui não tem como objetivo uma oposição ontológica ao “livre”, mas sim o de uma descrição prática.

[24] Até aqui, no entanto, o obstáculo dos interesses conflitantes é aparente, já que faz pouco sentido dar às localidades um poder de veto absoluto sobre as atividades que ocorrem “em seu quintal” se essas atividades já foram deliberadas pelas associações de maior escala que intercalam essas localidades. Novamente, várias formas de abstração social necessariamente indo além da escala local seriam centrais para esse processo e, provavelmente, áreas diferentes se estabeleceriam em diferentes proporções entre os poderes efetivos das unidades sociais de escalas diferentes.

[25] “The Revolutionary Programme of Communist Society” [O Programa Revolucionário da Sociedade Comunista], Basso, 2020, p.458.

[26] ibid.

[27] Leia: “Technical Expertise and Communist Production” [Expertise Técnica e Produção Comunista, The Brooklin Rail (2022-2023)]

[28] Na verdade, é um pouco mais complicado do que isso: o sistema de preços é ele mesmo apenas a aparência superficial do valor social total - uma categoria mais amorfa e inerentemente social, que não é completamente redutível às suas medidas empíricas aproximadas.

[29] Haja vista que tanto o dinheiro quanto o mercado antecedem o capitalismo, o questionamento acerca da possibilidade deles servirem algum propósito na sociedade comunista é frequentemente algo controverso. Existe um consenso geral de que qualquer sociedade na qual as pessoas precisam de dinheiro e mercados para conseguir produtos essenciais para a vida (coisas como comida, habitação, vestimenta, educação, saúde, etc) não seria de forma alguma comunista. Além disso, existem duas escolas (em termos muito vagos) de pensamento. A primeira argumenta que, na medida em que dinheiro e mercados são restritos aos bens “não-essenciais” (ou mais rigorosamente, bens “fúteis” ou “de luxo”), então eles podem continuar assumindo esse papel. A segunda argumenta que dinheiro e mercados devem ser rigorosamente proibidos. Em alguns casos, a proibição é justificada por (diríamos que erroneamente) argumentações de que qualquer forma de dinheiro e troca mercantil invalidariam as relações sociais comunistas in toto. No entanto a posição mais prática (e a que tomamos aqui) é simplesmente que, apesar de que essas formas podem e na verdade já existiram para além do capitalismo, não deixam por isso de ser extremamente perigosas. Limitar elas às margens “não-essenciais” é um desafio porque elas tendem a assumir uma natureza expansiva. Ao longo da história, relações de mercado foram extremamente isoladas da “esfera essencial” (a da produção local de subsistência) enquanto também batiam de frente contra essa esfera. Eventualmente, os mercados e o dinheiro invadiram essa esfera e se estabeleceram como base de nosso metabolismo social. Por causa disso, a suscetibilidade a um transbordamento futuro é ainda maior. Podemos pensar no dinheiro e nos mercados do mesmo modo como pensamos nos vírus. Mesmo que o vírus esteja muito limitado à alguns vetores marginais, o contato repetitivo com essa espécie aumenta o perigo de um salto zoonótico que — caso uma série de condições se estabeleça — permitiria a maior propagação do patógeno, em um ritmo acelerado, entre a população humana. Aqueles que dizem que o dinheiro e os mercados podem coexistir em uma sociedade comunista devem, a partir deste ponto de vista, explicar como exatamente esses mecanismos permaneceriam limitados aos usos marginais, sem transbordar na rede de atividades essenciais que compõem o núcleo do metabolismo social. Por esse motivo, argumentamos que é simplesmente muito perigoso reabilitar o uso de dinheiro e mercados até mesmo para os setores “não-essenciais” — apesar de que o risco poderia, concebivelmente, diminuir em centenas ou milhares de anos no futuro, depois que a sociedade comunista tivesse avançando tanto que adquiriu imunidade efetiva.

[30] Se pode nos ser concedida uma referência filosófica muito caprichosa, a estudiosa de Hegel, a chinesa Karen Ng, tem uma conferência discutindo o conceito do “limite” no pensamento dialético e sua relação com o problema do metabolismo social e os “limites naturais”.

[31] Pode-se argumentar que, em vez de uma fotografia de uma sociedade realmente comunista, Mau está na verdade oferecendo uma visão do período próximo da construção comunista, do mesmo modo que Benanav. Nesse caso, no entanto, o rascunho utópico se torna ainda mais relevante para a realidade, já que abstrai dos mesmos problemas que são centrais para as fases mais anteriores da construção comunista: o combate ao mundo capitalista remanescente em andamento, a necessidade de ficar em guarda contra uma reabilitação inconsciente da dominação social entre as bilhões de pessoas para as quais coisas como “dinheiro”, “propriedade” e “economia” parecem ser características pré-determinadas de qualquer organização social, e é claro, todo o processo político de transformação social contínua.

[32] Parece evidente que um grupo disposto a erguer uma grande usina termoelétrica por interesses estritamente egoístas sofreria um nível de hostilidade semelhante ao de quem contamina uma fonte de água. Em contrapartida, ao rejeitar o modelo social territorial, o sistema de livre associação tenderia a suprimir o surgimento de tais desejos paroquiais. Já os modelos comunitários, por sua vez, tendem a gerar esses interesses restritos.

[33] Decidimos ser propositalmente conservadores com o exercício especulativo de quais tipos de tecnologias e materiais estariam disponíveis aos communards. É quase certo que décadas de pesquisa e desenvolvimento comunista, guiadas por lógicas não pertencentes ao capital, vão criar métodos produtivos muito diferentes daqueles que somos capazes de imaginar no momento atual. Pode ser que novos métodos biossintéticos de produção em cadeia de ATP, feitos para a geração de eletricidade bruta, possibilitem a criação de motores “vivos” de um tipo inimaginável nos dias de hoje, por exemplo. Mas tentar especular sobre essas tecnologias esconde facilmente os problemas básicos de deliberação na esfera produtiva, servindo como um tipo de varinha mágica que acaba com a bagunça do processo produtivo. Vamos portanto falar do motor elétrico da forma como o conhecemos hoje.

[34] Uma boa amostra de como são realizadas as montagens de motores nos dias de hoje pode ser encontrada nesse vídeo, onde é mostrada uma linha de produção de motores operando na China. Os motores produzidos nessa linha são um tipo diferente daquele que descrevemos aqui: eles são maiores e apresentam enrolamentos de bobina no estator no lugar de ímãs. Mesmo assim, esse vídeo demonstra a complexidade técnica da produção de motores e o aspecto particular que assume sob o capitalismo. Um dos traços do processo que se destaca é o quanto do trabalho de rotina envolvido atualmente consiste de pouco mais do que mexer e arrumar os componentes enquanto eles passam por diversas máquinas.

[35] Existe, é claro, a ressalva óbvia de que determinados usos podem ser considerados críticos em determinados contextos e priorizados sobre aqueles considerados espúrios. Se um aumento na demanda por chapéus motorizados ameaçasse a disponibilidade de motores para equipamentos médicos vitais que precisam ser repostos após um desastre natural, por exemplo; então é concebível que uma associação de arbitragem ou de recuperação de desastres intermediasse um acordo entre a associação de produção de motores, os montadores de equipamentos médicos e armazéns regionais para prevenir que tragédias surgissem com baixas no estoque.

[36] A fusão em leito de pó é uma técnica industrial aditiva na qual finas camadas de metal ou pó plástico são derretidas e fundidas em sequência por lasers ou um feixe de elétrons para construir um componente 3D.

[37] Por exemplo, a obtenção de acrilonitrila e butadieno (utilizados para produzir adiponitrila, que é usada para produzir hexametilenodiamina, um dos ingredientes principais necessários para produzir nylon) a partir de biomassa. Isso faz surgir um enigma, no entanto, já que as alternativas para muitas matérias-primas na indústria química, derivadas de combustíveis fósseis, precisam de inputs de biomassa, levando a uma maior pressão no uso do solo. Alguns podem argumentar que continuar o balanceamento desse consumo de biomassa com a produção de hidrocarbonetos (necessariamente compensado por algum tipo de tecnologia de captura e sequestro de carbono) faz mais sentido do que tentar depender inteiramente de terras cultiváveis para a produção de plásticos alternativos.

[38] Nós, por outro lado, sugeriríamos que aqueles interessados em aprender sobre os sistemas fúngicos estão em melhor situação lendo “Entangled life” [Vida Emaranhada] de Merlin Sheldrake, um biólogo cujo uso da palavra “rizoma” não é exaustivo e tedioso.

[39] A fundição é um processo no qual o material derretido é derramado sobre um molde, algo que cabe bem na produção em grande quantidade de componentes idênticos.

[40] No geral, a sociedade comunista veria uma produção muito diminuída de ímãs se comparada com a produção sob o capitalismo. Isso se dá, em parte, porque o comunismo vai implicar na produção de um volume reduzido de artefatos em geral. Mas o processo sociotécnico de minerar e refinar metais também vai ser transformado em um nível fundamental. Em geral, podemos assumir que associações especializadas em geologia, mineração e metalurgia iriam priorizar formas de alta energia de reciclagem e síntese a partir de fontes de baixa concentração, mesmo que sejam menos “eficientes” em termos de custo hoje. Muitas outras “ineficiências” também seriam aparentes, incluindo infraestruturas rigorosas e redundantes para contenção de resíduos, atividades melhorativas nas áreas ao redor e campanhas culturais intensivas com a função de aumentar o conhecimento local sobre o processo, puxar mais membros para as associações relevantes e honrar as contribuições da terra e ecossistemas impactados. No caso de materiais como terras raras, limites planejados seriam ainda mais rigorosos — não devido a sua “raridade” (eles não são na verdade tão escassos) mas por causa dos impactos mais extremos no meio ambiente e na saúde causados por sua mineração e processamento, independentemente se a partir de reservas no solo ou de depósitos no fundo do mar. Uma vez que as terras raras são utilizadas para uma variedade de bens importantes para além de ímãs, podemos imaginar que usá-los em motores simples como esses estaria muito abaixo na lista de prioridade.

[41] A ferrita é produzida a partir da mistura e queima do óxido de ferro (i.e, ferrugem) junto de outro elemento metálico (geralmente estrôncio, bário, manganês, níquel, ou zinco), sendo então sensível a decisões produtivas tomadas por associações responsáveis pela mineração e processamento do minério de ferro ou de qualquer desses outros metais.

[42] Essa tecnologia é realizável atualmente, mas ainda está sendo desenvolvida por cientistas do MIT.

[43] A derrota aqui também não implica em alguma perda material. Em princípio, diferente do mercado de trabalho capitalista, esse tipo de competição esportiva não ameaça seus participantes com a subtração do acesso aos meios de subsistência ou dos prazeres da vida de qualquer forma. É apenas a derrota dentro do que é, no fim, apenas um jogo elaborado. Claro, associações especialistas estariam de guarda por precaução, caso esse tipo de atividade lúdica acabasse tomando um aspecto muito sério, reinventando de modo inadvertido, formas de dominação de facto ao longo de seus sistemas de incentivo. O mesmo valeria para a participação voluntária em simulações elaboradas vividas — talvez existam pessoas com algum tipo de prazer masoquista na interpretação erótica de “trabalhadores” pagos com “salários” por dominatrizes profissionais. O ponto é, no fim, que os communards do futuro apenas conhecem o barbarismo da despossessão proletária através de ecos vestigiais remanescentes em jogos e no subconsciente sexual. O contato mais direto que os communards teriam com as formas de dominação social — com as quais somos intimamente familiares — seria através de lições de história e peças de teatro de época onde herdeiros capitalistas, retratados de forma tão chique quanto a nobreza medieval dos contos de fadas, disputam favores do deus místico conhecido como “bolsa de valores”, fazendo uso de um ritual mágico chamado “demissão” onde trabalhadores são sacrificados no altar do “Relatório Trimestral” pelas mãos de algum tipo estranho e impopular de sacerdote chamado “Gerente de Recursos Humanos”.

[44] Apesar desse não ser o foco da nossa discussão, podemos resumir esse processo de compor um sujeito revolucionário coletivo — ultrapassando o horizonte de uma “organização de partido” singular, uma cultura ou ecossistema partisão e organizacional que excede qualquer instituição formal — capaz de agir com um certo grau de intenção distribuída dentro, através e além das inúmeras lutas por condições de subsistência na sociedade capitalista, de modo que essas lutas sejam empurradas para além de seus limites na direção geral da desmercantilização. Em outras palavras: não fundando algum partido ideal para dirigir as lutas, mas construindo o verdadeiro partido legado a nós pelo caos e contingência da história.